quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Superhumana


( Conto baseado na música Superman- Five For Fighting)

Foi em Dezembro quando eu decidi que não queria mais sofrer, e mais do que isso, não queria que minha mãe sofresse mais. Eu tinha estudado longos seis anos durante a faculdade de Medicina, sem contar a residência e tempo de especialização. Mas muito diferente do que achava, por mais que insistisse ser um processo natural da vida, eu não sabia lidar com a morte como eu esperava. Infelizmente, só descobrirmos não saber lidar, quando já aconteceu.

Eu havia perdido meu pai há quase cinco meses, e desde então tinha voltado da cidade onde vinha morando, já há alguns anos, para o interior, com intenção de estar junto de minha mãe. Meus dois irmãos fizeram  a mesma coisa, e agora, depois que todos já eram maiores de trinta e cinco anos, estávamos juntos novamente. Ninguém havia lidado exatamente bem, mas não era algo que falávamos, pois desde então vinhamos tentando manter a rotina antiga da família. Horários de café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e um copo de achocolatado antes de dormir. Agíamos como se fosse uma viagem, e que meu pai poderia entrar por aquela porta à qualquer instante, mesmo sabendo o quanto meu pai não gostava de viagens, o quanto era metódico por gostar do seu próprio espaço, aquele que ele conhecia.

Foi em meados de Dezembro, como falei antes, que decidi que queria mudar, que aquela nostalgia não podia continuar, nós sabíamos a verdade e tínhamos que aceitá-la. Pedi mais um tempo com minha mãe para meu marido, que continuou trabalhando na capital,e  preparei tudo sorrateiramente. Comprei as passagens de avião, e na hora do jantar, surgi com a proposta, sem mais nem menos. Passar a passagem do ano em Punta Cana, na República Dominicana.  Posso dizer, para quem procura um lugar para viajar, esse com certeza é o local, um verdadeiro paraíso...e achei que o mar do Caribe poderia renovar, não só a mim, mas a minha mãe também. 

Aprontamos as malas dia 28 de Dezembro, e no dia seguinte, logo cedinho, estávamos embarcando, apenas nós duas. Não vou mentir e dizer que não pensei em meu pai todo esse tempo, muito menos que minha mãe tinha esquecido ele...pelo contrário, eu sabia que eles eram um daqueles poucos casais destinados ao "amor eterno", ou o que quer que você chama,...mas eu vi um sorriso no rosto dela, ainda que tímido, que valeu mais do que qualquer outra coisa. Passamos exatamente uma semana lá, e na volta, quando eu achei que talvez estivéssemos prontas para seguir, um aviso no avião me pegou de surpresa:

- Senhores passageiros, se existe algum médico a bordo, pedimos que se apresente as comissárias...

Eu estava de olhos fechados, e passaria muito bem por alguém que tinha pegado no sono. Entenda, não é que  eu não quisesse ajudar...em outras ocasiões, em aviões mesmo, eu já cheguei a comparecer todas as vezes que foi solicitado, ajudei inclusive em três casos de urgência que aconteceram no avião salvando a vida de passageiros...mas dessa vez,  lidar com a vida me trazia medos, incertezas. Irônico para uma médica dizer isso. Escutei minha mãe sussurrando meu nome,me alertando sobre o aviso, e quando abri os olhos, encará-la, me fez ter a certeza que eu precisava fazer isso.

Levantei da poltrona e fui me apresentar. Me levaram até um senhor de bastante idade que convulsionava, e assim como meu pai, ele tinha Alzheimer, o que fez com que eu engolisse em seco, tivesse ainda mais medo. Se eu morasse perto, talvez pudesse ter salvado meu pai. Essa culpa sempre martelava em minha cabeça. A responsabilidade de não estar ao lado dele quando precisou. Tomei todas as medidas de urgências necessárias, e quando enfim conseguimos conter o senhor com os remédios que o próprio avião leva a bordo, ele estava controlado até o nosso pouso.

 Quando voltei ao meu assento, ainda com o coração acelerado pela adrenalina, pelo medo. Minha mãe trazia orgulho nos olhos, me encarava como se eu fosse a heroína, aquela médica heroína que saímos da faculdade e achamos ser. Entre os abraços e beijos que ela me deu, eu tive aquela sensação de recém formada novamente, aquele pouco de onipotência que fazia bem, que nos trazia confiança para agir. 

Eu sabia que por dentro ainda era a pessoa perdida, talvez ainda até desolada e que sangrava muito pela recente perda. Ser "herói" não significava não sangrar e não sentir dor...e hoje, diferente de quando, jovem, tive meu diploma em mãos,  eu sabia disso. Você vai passar por dificuldades sim, sendo médico, engenheiro, arquiteto, advogado, jornalista....dificuldades fazem parte da vida, e são elas que nos constroem, nos moldam. Mas de todas as vezes que em pensei abandonar minha capa vermelha, cair de joelhos no chão e chorar, querendo buscar um pedaço da minha melhor parte tudo que me vinha a mente eram os olhos cheios de orgulho de minha mãe, e isso me trazia a certeza de que ali estava a minha melhor parte. 

Superman (Tradução)


Por Lis Selwyn

Um comentário:

  1. SUPERHUMANAAAAAAAAA

    Ahhh omoooo *___* Eu AMEI completamente a emoção por trás deste conto. Adorei o cenario q vc criou aqui, muito perfeito! Adorei a ilustração tb!

    E adoreiii sei lá, olha, nem sei q t dizer, pq eu já disse isso um milhão e trezentas de vezes q essa cena aqui dos contos é SUA PRAIA! Uma das coisas q eu acho q vc faz melhor. Pega numa ideia, e resume uma situação super significativa, embora seja um mero detalhe, sei lá.... traz força, carga emocional pra cima das frases. Muito bom, n é qq um! Meus Parabéns!!

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