sexta-feira, 8 de março de 2013

Semáforo da Reflexão (Conto)




O semáforo tornou-se vermelho e ela foi obrigada a parar o carro. Seus olhos, cansados pela noite de quatro horas mal dormidas, desviou para fora da janela. Não teve coragem de abrí-la, era um ponto estratégico de assalto, e ela sempre evitara isso, sempre morrera de medo. Observou a enorme fila de carros a sua frente, e sabia que não sairia de lá tão cedo. Fumaça, caos, barulho, confusão...sempre afirmara que a cidade era cinzenta demais, e que isso fazia mal aos moradores.

Encostou a cabeça no banco do carro e fechou os olhos. Sua mão foi até o botão do rádio e diminuiu a voz do Axl Rose que cantava Don't Cry. Sua mente foi se afastando dali. Imaginou um imenso oceano e o barulho das ondas indo de encontro as rochas foram ocupando seus ouvidos. Se conseguisse se concentrar um pouco mais podia até sentir a brisa úmida e salgada que a praia proporcionava. Se lembrou de todos os finais de semana na praia em família quando era criança. Os castelinhos de areia, banhos de mar e o final da tarde no centrinho da cidade que costumavam ir. Da viagem de carro e a forma como ela e os irmãos brigavam no banco de trás para escolher a trilha sonora da estrada. Sentiu falta, muito embora na época reclamasse, e foi invadida por uma nostalgia que apertou seu coração, era a saudade de seus pais e irmãos,  e como a avó sempre fazia o melhor pudim de leite condensado que já conhecera. A lembrança doce do pudim a fez sorrir. Talvez devesse visitá-los dia desses. Sempre ligava prometendo a sua mãe que aquele final de semana iria, mas, como os outros, voava rápido demais, e os encontros acabavam ficando em razão de festas comemorativas ou problemas.  

Pensou em seus primeiros anos no ginásio, como ansiava se o ano seguinte seria mais difícil e como os problemas de matemática pareciam impossíveis. Se hoje os problemas fossem só os de matemática...Ela se pegou pensando, e acabou fazendo uma careta. O colegial fora o talvez o ponto alto de sua vida. Aquela mistura que parecia insuportável na época, o conflito entre emoções e a preparação para a faculdade, a pressão...agora fazia uma enorme falta. Sentiu saudades de seu primeiro amor e aquela sensação gostosa e inocente de que seria para sempre. Sentiu mais saudade ainda da melhor amiga do Ensino Médio e as plantas de apartamento que desenhavam durante a aula dizendo que morariam juntas na praia e fariam faculdade de Jornalismo. Não foram morar juntas na praia, e nenhuma das duas fez faculdade de Jornalismo. Não deviam se ver há mais de dez anos , e tentavam marcar um encontro desde aquela época.

A faculdade parecia extremamente chata no começo, não passava nunca e a cada ano o número de matérias que não lhe agradava aumentava. Mas passou, e aquela sensação de nostalgia a tomou de novo. Sempre jurou que não falaria isso, mas sentia falta da faculdade e da tensão de uma semana de provas. Talvez eu esteja ficando louca,...é isso! Tentou chegar a conclusão. Adquirira durante esses anos tantos vícios que sempre abominara. Almoçar em cinco minutos, andar com a janela do carro fechada e olhar de meio em meio minuto para conferir  as horas no relógio.

Pensou em seu emprego, e a sensação foi ainda pior, mas não de saudade e sim irritação. Não ganhava mal, mas também podia ganhar mais. Levava em dias de trânsito três horas para chegar lá e dar de cara com pessoas mal humoradas que só a faziam combinar com a cidade: cinzenta. Desejou largar tudo, mas sabia que não podia. Pensar no trabalho fazia o mar em que se imaginava tornar turbulento em meio uma terrível tempestade, por isso tentou pensar em algo um pouco mais sereno, ou um pouco menos impactante. Fez um balanço geral de seu guarda-roupa e só conseguia se lembrar de peças pretas. Talvez estivesse precisando trazer um pouco de cores até mesmo para ele. 

Embora soubesse que refletir não seria o suficiente para mudar tudo, prometeu a si mesma que reveria algumas coisas e se possível as mudaria. Visitaria os pais esse final de semana e marcaria alguma coisa com os irmãos. Iria encontrar a receita do pudim que a avó deixara, e tentaria realizar um parecido. Ligaria para a melhor amiga de colégio e marcariam um final de semana na praia. Procuraria um novo curso, talvez algum idioma que sempre a encantara. Reveria a respeito do emprego, e talvez procurar algo melhor seria o certo. E iria fazer compras para o guarda-roupas.

A buzina cortou completamente a imagem da praia que estava em sua mente. Levou um susto, quase como se tivesse sido despertada em meio ao sono, e foi necessário voltar a realidade. À cidade cinzenta, trânsito, caos, barulho...

Respirou fundo, tinha perdido a noção do tempo. Deu partida no carro e aumentando o som do rádio. Teria que esperar o próximo semáforo para uma nova reflexão.


Por Lis Selwyn
 ( 8 março 2013 )

6 comentários:

  1. Thais,

    Adorei esse pequeno conto. Um texto que dá o que reflectir, tão real e presente no dia a dia de tantas gente, principalmente, das pessoas consumidas pelo stresse das grandes cidades. Sabe aquela imagem das pessoas de cor cinzenta andando de forma apressada de uma lado para o outro? É, esse texto dava para ser um resumo à história dessa imagem.
    E é sempre tão ruim, porque quando a gente toma consciência da forma como vai a nossa vida, e daquilo que não gostamos dela, a gente simplesmente adia a mudança que precisa ser começada....por algum lado, nem que seja através da paragem no meio do engarrafamento da cidade embebida em indiferença que nos engole.

    "Respirou fundo, tinha perdido a noção do tempo. Deu partida no carro e aumentando o som do rádio. Teria que esperar o próximo semáforo para uma nova reflexão."

    Adorei!!! Parabéns! =)

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  2. Já aconteceu comigo várias vezes nas paradas nas sinaleiras (semáforos), principalmente naqueles de três tempos e em meio ao trânsito travado.
    Muito bom o texto.

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  3. Conto bem expressivo, gostei...realmente tem varios fotos do cotidiano!!!!
    Passa no meu blog pra conhecer, se gostar siga que eu sigo tb!!!
    www.makeolatras.blogspot.com.br
    Bjsss =]

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  4. Heey, Tânia! Muitooo feliz que você tenha gostado...acho que foi o primeiro que você leu por aqui né?!...quando te apresentei o blog. Esse texto, particularmente, foi vindo em ideias tão aleatórias...e quando tive as linhas escritas no papel e fui reler....pensei: nossa, talvez seja melhor eu começar a mudar desde agora, não quero chegar lá na frente assim! Acho que é dificil não se identificar exatamente pelo o que falou, muita coisa nos incomoda, e tentamos deixar para mudar amanhã...e o amanhã só se prolonga! Estou muito feliz que tenha curtido minhas "maluquices" também por aqui, haha beijinhos!

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  5. Muito obrigada, Claúdio, acho que acaba acontecendo sempre né...a gente que vive em cidade grande, caótica..é muito caos, ....e ai, pensar na vida (enquanto esperamos), é o que nos resta, né? rsrs

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  6. Heey Bia! Muito obrigada por visitar aqui, vou dar uma passada lá no seu blog sim, com certeza *_* obrigada, beijinhos!

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