sábado, 24 de agosto de 2013

Encontros e Desencontros (Conto)


N/A: Conto inspirado na música Daylight (Maroon5) e em alguns causos que eu fui escutando por ai! ;)


Encontros e Desencontros

"Here I am waiting, 
I have to leave soon 
Why am I holding on?  
We knew this day would come  
We knew it all along, 
How did it come so fast?"


Pela décima vez nos encaramos em silêncio. Nunca nos havia faltado assuntos, risos e diversão, mas por algum motivo, aquela noite estava silenciosa demais, mais do que eu desejava, e de certa forma, não havia um caminho que eu conhecesse para quebrar aquela barreira.

- Mais um pouco?! – Oliver levantou os olhos para mim, levantando a jarra de limonada. Concordei com a cabeça, levantando meu copo em sua direção. Havíamos programado aquela noite como mais uma das que vinham acontecendo nas últimas semanas, tentando evitar de pensar que seria a última...Não, eu não era pessimista, nem dramática, eu era realista. A última vez que me lembro de ter contado, quando percebi que de fato eu e Oliver estávamos envolvidos, faltavam dezenove dias para a viagem. E ainda que eu tivesse fantasiado mil vezes como seria nossa despedida, ainda que eu soubesse que haveria uma despedida quando começamos a sair, eu nunca imaginei que ela seria daquela forma, tão...silenciosa.

- O voo é amanhã...às oito da manhã...- Foi a primeira coisa que me passou pela cabeça, para quebrar aquele silencio. Me arrependi no mesmo instante de ter tocado naquele assunto. Tomei um gole da limonada, me perguntando porque cada dia que se aproximava ficava mais difícil de evitar o assunto. Eu estava envolvida, não queria admitir, mas eu estava envolvida.

- Você quer que eu vá no aeroporto?...- Seus olhos azuis, um azul piscina tão intenso, me encaravam sem que eu tivesse escapatória de, se não, retribuir o olhar.

- Não! – Me apressei em dizer. – Quer dizer, meus pais...

Oliver concordou com a cabeça, entendendo onde eu queria chegar.

Ele não era mais uma paixonite, não era um cara que eu conheci em uma noite qualquer...não, ele não era. Eu conhecia Oliver há pelo menos uns quatro anos. Na época em que seu rosto ainda era cheio de espinha, ele era mais baixo que eu, gordinho e com um cabelo cortado tigela bem brega,...e houve uma época em que éramos até melhores amigos...do tipo que dá conselhos amorosos e tudo, quer dizer eu já fui apaixonada pelo melhor amigo dele, dá para acreditar? Agora que o ginásio havia passado, o colegial havia nos separado, cada um em uma sala, havíamos também nos afastado...ou pelo menos até as férias de inverno, quando tudo começou...ou seria, continuou? Porque com certeza eu não sentia que nossa história estava começando naquele instante, não, eu sentia que estávamos enfim permitindo que ela continuasse.

Oliver tinha mudado bastante fisicamente, talvez seja um pouco redundante dizer isso quando se está na adolescência, o que mais acontecem são mudanças...mas...ele de fato estava mudado. Ele estava alto, bastante alto e magro, o cabelo preto, no lugar do corte típico de filhinho da mamãe, agora se encontrava arrepiado...fazendo o tipo de garoto rebelde...e....extremamente charmoso. – Suspirei com aquele pensamento. Bebi um gole de limonada, voltando ao presente e tentando afastar aquelas lembranças passadas. Nossos olhos se encontravam, ao encará-los, de repente, por alguns instantes eu acreditava que ele era o mesmo de antes. Quer dizer, haviam boatos, muitos boatos do Oliver atual, mas de alguma forma quando estávamos juntos...ele não parecia ter mudado, ele era carinhoso, educado e encantador...

- Eu não quero que seja assim, Lisa! – O rapaz me pegou desprevenida, fazendo encará-lo. Eu jurava que a próxima frase dele seria a respeito de precisar ir embora, ou algo assim.

- O que...? – O vi se levantar, andar até o lado da mesa onde eu estava sentada e segurar em minha mão. Não era a primeira vez que eu havia estado em sua casa, mas estar a sós ali com ele de certa forma fazia com que eu tivesse uma sensação inédita a respeito daquele local. Deixei que ele me conduzisse pelos longos corredores do apartamento, até reconhecer a porta de seu quarto. Trocamos olhares, antes de adentrarmos ao cômodo, e de certa forma seu sorriso torto, fez com que eu me sentisse menos nervosa. Assim que entramos o vi puxar o violão e se sentar na cama sob a colcha verde escura. Acabei rindo com aquela imagem, por anos havia tentado convencê-lo a tocar para mim e havia sempre uma desculpa que o impedia de fazer isso.

- Mas eu só toco...se você tocar comigo! – Percebi seu rosto pálido ruborizar de um jeito fofo, que fez com que eu me aproximasse. Selei os lábios dele, me sentando ao seu lado, e ele se aproximou mais, se encaixando nas minhas costas e levando o violão a minha frente, para que ambos de fato conseguíssemos tocar juntos. Seu corpo as minhas costas causava um arrepio diferente, ao mesmo tempo que uma sensação de proteção, uma sensação de familiaridade, que eu temia muito não encontrar nos seis meses que eu ficaria fora, e mais do que isso, uma sensação que eu temia sentir falta. Suspirei, sentindo sua mão sobre a minha, sob as cordas do violão. Sorri, sentindo um beijo na curva de meu pescoço, me arrancando um sorriso sincero, apaixonado. Dedilhamos as primeiras notas de Patience dos Guns ‘n Roses, depois tocamos Pearl Jam, The Calling, Metallica e Nirvana. Percebi algumas lágrimas rolarem por meu rosto, conforme um nó cada vez maior foi se formando em minha garganta. Meus dedos começaram a hesitar, não mais conseguindo tocar, e eu sei que Oliver percebeu, porque também parou, me abraçando forte, dispensando qualquer palavra. Seu rosto se encaixou em meu ombro enquanto suas mãos permaneciam em volta da minha cintura. Ficamos daquela forma até eu começar a me acalmar, até conseguir encontrar fôlego para falar.

- Não é justo...nós tivemos tanto...

- Shhh...- Escutei ele sussurrar em meu ouvido. Oliver já havia passado uma temporada na Inglaterra, mesmo lugar de meu destino, ele sabia como era. -...Não diga isso...pode ser difícil agora, mas você irá se divertir...você...- Ele era quase sempre indecifrável, a maioria dos garotos na minha idade são tão previsíveis que chegam a ser entediantes, mas de certa forma ele era tudo, menos previsível.

- Eu só queria poder ter tido mais tempo...

- Não é um Adeus, isto é um até logo...é só uma vírgula...- Mais uma vez ele sussurrou, e virei meu rosto um pouco mais para poder encarar aquela imensidão azul que eram os olhos dele, tão bonitos que chegavam a ser difíceis de encarar sem não viajar em pensamentos.
- Mas eu...



- Nosso combinado, lembra? – Sentei de lado, para podê-lo de fato encarar com mais facilidade. Concordei com a cabeça a respeito do nosso acordo, viver, independente de sabermos o que teríamos a frente. – Eu só quero que você me abrace, que possamos aproveitar o que temos agora! – O abracei forte, acabando com o espaço que havia entre nós, e segurando o choro desta vez, fechei os olhos. Podia viajar sentindo seu perfume, sua pele e sua respiração tão próxima ao meu ouvido. Podia viajar, sonhar, e só desejava não acordar tão cedo. Ambos sabíamos o que viria a seguir, mas havíamos optado por nos amarmos, mesmo tendo consciência de que nosso tempo era contado naquele instante. Oliver estava certo, aquilo poderia ser só uma vírgula, e nossa história não dependia ser escrita por ninguém mais, além de nós. 

Por Lis Selwyn

2 comentários:

  1. Thaís, maria Thaís! XD

    Estes pedaços de vida que vc consegue ter a destreza de pegar e colocar nem palavras sempre me tocam de um jeito especial.

    Adorei o pequeno conto, vc o escreveu com uma delicadeza sem igual. Com certeza, esta é uma das vertentes da escrita pra que você leva mais jeito. Simplesmente amei o jeito de Oliver... ahahah, foi tudo tão nostálgico, tão significativo e tão real e credível que foi lindo de se ler. Me envolvi e dei por mim a sorrir feito uma boba.
    Você sabe fazer estes "recortes" como ninguém. Sinceramente. 5*
    Parabéns!

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  2. Ahhhhhhhhhhhhhh que booom ter você sempre aqui, querida! *_* seriooo...adoro quando consigo tocar de alguma forma com o que escrevo, e se consegui isso com você...fico extremamente satisfeita! Fico feliz em ter conseguido passar a história desses dois jovens! *_* Obrigada por passar por aqui

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