quinta-feira, 24 de abril de 2014

Retalhos de Um Retrato (Não Tão) Perfeito (Conto)



Agora era como um pensamento distante. Um tormento que dera lugar a noites vazias, não que isso fosse ruim, era na verdade um alívio. Quatro anos resumidos em uma noite, era sobre o que se tratava todos aqueles preparativos, famílias vindas de longe, fotógrafos, roupas de gala e cardápio extenso.

Os dias até a esperada noite haviam avançado rapidamente, pareciam ter tomado uma aceleração fora do normal nas últimas semanas, e quanto mais eu desejava que ainda faltassem dias, mais rápido eles corriam. Quando me dei conta, lá estava eu no longo vestido rubi à espera para a fila da valsa. Valsa. Mais uma palavra sem sentido, de sentimento vazio, se a pessoa com que eu desejava que dançasse comigo no centro do salão não poderia. Mas está história é para outra hora, outro conto, outras linhas.

Naquele momento, naquela fila, eu só conseguia ansiar pelo término. Minha cabeça girava em uma velocidade absurda, doía acompanhada de uma forte pressão, enquanto ao fundo eu escutava risos, brincadeiras de pessoas tão batizadas pelo álcool e seus efeitos que se quer eram capazes de dar conta do que diziam. Não importava. Do contrário, eu estava sóbrea. E talvez tenha, aí, sido meu grande erro.

Estava cercada de pessoas conhecidas, amigos com o qual eu dividira as manhãs durante quatro anos, além do mais, aqueles que me conduziam ao palco, para deslizar ao som da tão esperada dança, eram todos parentes, familiares. Mas ainda sim, naquele instante, pareciam meros desconhecidos. Retratos que, apesar de parecerem perfeitos, traziam por trás muitos defeitos. Os giros na pista me deixavam ainda mais tonta, mais desnorteada, e parecia que quanto maior fosse a luta para que tudo enfim acabasse, mais era assombrada naquele demorado e inacabável luar. Eu sabia o que queria, sabia que aquele não era o meu lugar. Sabia que não me encaixava, sensação esta que já havia experimentado diversas vezes em outras ocasiões, como daquela forma, em segredo do resto do mundo.

No último balançar, senti meu coração se aliviar. Sabia que ainda restavam horas para tudo acabar, mas pelo menos um olhar cúmplice eu poderia agora encarar. Fui recebida com parabenizações, sorrisos e alegrias. Não me rolou uma sequer lágrima, no lugar daquela emoção que todos diziam sentir, a mim, só restou um vazio, uma lacuna. Não que eu não estivesse tocada, estava sim, mas por outros motivos. Sabia que a realidade agora viria, que aquela festa encerrava completamente meu vínculo de estudante daquele curso, e que mais do que nunca precisaria assumir minhas escolhas e suas consequências.

Olhei mais uma vez ao redor encarando todos aqueles sorrisos, pareciam satisfeitos e orgulhosos. Quis me aproveitar da situação, ser mais uma vez, como em muito tempo não era, a filha, neta, afilhada, sobrinha, prima, irmã que trazia orgulho, mas não me permiti. Mentir para mim mesma seria ainda pior. Do contrário varri mais uma vez o ambiente com os olhos até encarar aquele olhar que eu procurava.


Ela estava radiante, impecável em seu vestido azul. Sorria também, mas não era como os outros. Eu sabia que ela sorria sabendo mesmo toda a verdade. Meus planos, gostos e desgostos. Sorri também, retribuindo, da maneira cúmplice e mais sincera que poderia fazer. Não tinha muitas certezas àquela altura da vida, mas das poucas que eu tinha, eu sabia que ela era meu presente e meu futuro, meu destino e meu mundo.


Por Lis Selwyn
(25/03/2014)

Nenhum comentário:

Postar um comentário