segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Encantadora de Almas (Conto)



A Encantadora de Almas

Era já final da noite quando me acomodei em uma das estreitas poltronas do café vinte quatro horas chamado de Where The Night Ends. Minha cabeça ainda estava zonza devido ao grande barulho do ambiente que eu estivera anteriormente. Sentia um zumbido que incomodava, mas não podia ser ignorado. O café estava vazio, ainda era relativamente cedo e a maioria das pessoas preferiam estar enfurnadas em casas noturnas como a que eu estava há cinco minutos atrás, dançando e bebendo feito loucas, arrumando uma grande desculpa para fazer besteiras. Sinceramente, eu nunca havia sido muito frequentadora deste tipo lugar, para mim, lugares assim – lotados – são ainda mais barulhentos e perturbadores do que o normal. Mas há três semanas atrás eu vinha tentando frequentar baladas e manter uma vida noturna ativa por insistência de...praticamente todos que viviam ao meu redor.

Eu não era antissocial, ao menos não acreditava que fosse. Simplesmente eu vivia trancafiada tempo demais dentro do laboratório que trabalhava como bióloga para tentar acreditar em qualquer resquício de vida social. Bom este era o preço para meu tão esperado e desejado Mestrado, ou seria apenas uma desculpa?

A garçonete se aproximou com um menu, mas o recusei com um sinal com minha mão direita. Percebi que ela havia se atentando aos anéis em minha mão e pulseiras e me senti mal por um instante por não ter as unhas lixadas e pintadas no último tom de pink como eram as dela. - Desculpa, cuidar de células o dia inteiro não permite que eu tenha unhas como as suas... – Foi o que quis responder ao deduzir o que ela pensava me encarando daquela forma, mas apenas pensei. Com sorte ela não era como eu.

- Um café forte, por favor...- Pedi, a fim de tirar o gosto da vodka que restava em minha boca. Eu nunca gostara desse tipo de bebida, não sabia porque vinha insistindo tanto. No máximo uma cerveja, e olhe lá. Suspirei e assim que a moça das unhas pink me deixou a sós senti um alívio imenso. Meus olhos percorreram novamente o lugar, aparentemente eu ainda era a única cliente, a única pessoa em sã consciência que deixava a balada as duas da manhã. Meus olhos se fixaram no slogan que havia no mural logo atrás o balcão das atendentes “ If your night went bad, at least have a good coffee” – Bom, sinceramente, já que a noite ruim era praticamente certo que eu teria, ao menos eu esperava que não fosse propaganda enganosa e um bom café eu tivesse ali.

O sino do café chamou minha atenção e quando olhei em direção a porta uma garota de moletom e capuz na cabeça adentrou. A forma como andava, encarando o chão e escondendo as mãos na manga do casaco eram indicativos de que ela não estava bem. Quando se acomodou umas três mesas depois da minha, abaixou o capuz e pude ver seu cabelo loiro e comprido todo desgrenhado. Seus olhos estavam vermelhos, o que me restava duas hipóteses:

a)    Ou ela andara chorando.
b)     Ou era uma drogada.

Encarei-a mais uma vez, sem poder evitar e creio que ela percebeu. Olhou em minha direção e engoli em seco, sentindo meus braços se arrepiarem. Havia algo nela, algo de muito triste, e eu podia sentir.

Bom, está ai o fato que eu vinha tentando evitar desde o princípio. Algo que eu nunca menciono nem em primeiros, nem em segundos e nem em terceiros encontros. Mas, como não creio que seja o nosso caso, talvez eu possa mencionar ou tentar explicar minhas atitudes e talvez, só talvez vocês irão compreender a vida que levo atualmente.

Não é um poder, apesar de alguns acreditarem que seja um dom. Se está aqui no aguardo de uma grande história de ficção, de super-heróis, bruxas, vampiros ou qualquer outra coisa, aconselho procurar outra. Pois, esta, se trata apenas da história de uma garota que vem lutando para viver em meio as mentes alheias. Ok, serei mais breve e mais objetiva.

Durante praticamente toda a minha vida eu vim lutando e buscando uma forma de conviver com os pensamentos alheios. Quando encarei aquela garçonete, eu não imaginei o que ela pensou, eu soube exatamente o que estava em sua mente: “Com uma mão dessas, não me surpreende que ela esteja aqui sozinha...desleixada e esquisita...”.  E não que tenha me incomodado, acredite, já escutei coisas muito piores, o problema é quando são muitas mentes falantes ao mesmo tempo. Não é a toa que eu não suporto ambientes cheios, que eu não consiga ficar mais do que uma hora e meia dentro de uma casa noturna...não é a toa que eu trabalho em um laboratório, com coisas não falantes, onde eu aturo apenas a minha chefe por não ter opção. Não sei exatamente quando começou, ou se eu de fato já vim assim, um cd riscado, mas o fato é que eu não consigo me lembrar de uma vez se quer que eu estivesse em silencio ou em paz com minha cabeça, senão, dormindo. Muitos  devem estar pensando que escutar, ou, ler os pensamentos alheios – esta deve ser uma expressão mais conhecida – deva ser uma dádiva, afinal quem nunca quis saber o que tal pessoa achava de você, ou ter a exata resposta que o professor esperava ou saber os números da mega-sena?...ok ok...nesta parte eu estou me gabando, eu nunca adivinhei os números da mega-sena porque não se trata de um pensamento, e sim de uma aposta.

Eu posso garantir que o mar não é tão belo quanto parece. Na maioria das vezes é assustador. Pois, as pessoas tendem muito mais a pensar coisas ruins do que boas. Deixando o egoísmo de lado, o fato do “O que elas pensam de mim”, tem também a parte das histórias ruins que você fica sabendo, os sentimentos de tristeza e os pesadelos mais assombrosos. Na verdade, quando encarei a garota que ali entrou, foi um misto de todas essas sensações e pensamentos que senti e escutei.

A garçonete se aproximou novamente com todos aqueles pensamentos produtivos e construtivos e deixou meu café em cima da mesa. Tomei um gole e o gosto amargo fez com que eu fizesse uma careta, havia esquecido de adoçar. Minha cabeça de repente parecia tão avoada, distraída. Fingi encarar e mexer no celular que havia deixado na mesa, mas no fundo observava a garota, que perguntava preço a preço dos itens do menu.

Alguns minutos depois a garçonete voltou com um pão na chapa e um suco de laranja. A garota, faminta, pareceu devorar tudo de uma só vez, enquanto eu bebericava o café a fim que ele rendesse até que a bebida havia esfriado. Ela tirou o casaco, ficando apenas com uma camiseta e deixou-o apoiado na cadeira vazia ao seu lado. Naquele frio, era no mínimo estranho. Mas eu sabia que ela tinha outras intenções fazendo aquilo. A jovem loira deixou sua mesa em direção ao banheiro e assim que ela sumiu de vista, deixei dinheiro o suficiente para meu café em minha mesa e fui até onde ela estava, deixando dinheiro para o que ela havia comido também. Peguei seu casaco e fui atrás dela no banheiro. Quando abri a porta, como eu havia imaginado, a loira tentava desemperrar a janela para fugir.

- Você esqueceu...- Ela pareceu assustada, puxou o casaco para si mesma. Eu podia sentir a vergonha que ela sentia, queria se esconder atrás do casaco, se esconder dentro do vaso sanitário e dar descarga, se fosse possível.  – Eu não quis assustá-la...- Avisei, mas a loira ainda estava insegura. Estiquei minha mão em sua direção, me apresentando. – Laura, prazer...

- Anna...- Ela arriscou a dizer em uma voz baixa, por um momento apertou minha mão, mas logo soltou-a.

- Está tudo bem Anna...- Tentei me aproximar, mas ela deu um passo para trás, encostando as costas na parede. -...eu já paguei sua conta.

- Você...não...eu ia...

- Está tudo bem. – Falei novamente em meio a confusão.

- Por que? – A jovem indagou confusa.

- Eu quis ajudá-la. – Confessei.

- Ninguém nunca quer...- Anna pareceu ser sincera também.

- Eu quero...

- Por que? – Ela indagou desconfiada.

- Por que você está triste?

- Eu perguntei primeiro. – Era bem mais teimosa do que eu imaginara.

- Eu quero ajudá-la, já disse...- Repeti.

- Olha, se você veio me assaltar, veio atrás da pessoa errada...- Ela tirou uma faca de dentro da calça, apontando-a para mim. Levantei os braços, dando um passo para trás. – É bom me falar o que você quer comigo.

- Você não vai acreditar. – Disse com os olhos atentos na arma que ela tinha em mãos.
- Por que não tenta? Ao menos é melhor do que ficar repetindo que quer me ajudar.
- Mas isso é verdade...eu sei que você tem sofrido...

- Que bicho estranho é você? – Ela indagou exatamente o que estava em sua mente. Até então Anna era a pessoa mais sincera, mais verdadeira que eu conhecera, ela não censurava um se quer pensamento. Não que isso fosse bom, mas era melhor do que muita gente falsa que eu conhecera.

- Eu...eu simplesmente posso escutar o pensamento das pessoas. Quando você entrou no café, eu tinha a certeza de que estava triste...de que havia sofrido muito...

- O que? Você acha que me engana? Eu só tenho cara de idiota, escutou? Mas não sou! – Anna apontou novamente a faca para mim.

- Por que não tenta? Pense algo... – A desafiei.

Mas houve um silêncio. Ela abaixou a faca e ficou me encarando, como se eu fosse alguma ilusão, como se não existisse, mas ainda sim ela me visse. Sua mente ficou vazia por alguns instantes, até que pouco a pouco pareceu voltar a funcionar.

- Você perdeu seus pais, não foi? – Indaguei assim que captei, e Anna ficou bastante assustada.

- Você...você...faz isso mesmo que falou?

Concordei com a cabeça.

- Por que não me conta? Vai fazer você se sentir melhor...

- Por que você não lê a merda da minha mente então? – Indagou-a agressivamente.

- Porque só quando conseguir falar em voz irá conseguir aliviar o que está sentindo.

Os olhos vermelhos de Anna encheram-se de lágrimas, encostada na parede pouco a pouco ela foi deixando o corpo pesado cair até que estivesse sentada no chão.

- Eles foram mortos. - Ela disse o que eu já sabia, mas ainda sim foi paciente. Me abaixei perto dela, mas ainda sim respeitando uma distância considerável, uma vez que a moça mantinha uma faca em mãos. – Eles foram mortos e se contasse para alguém, principalmente para a policia, garantiram que eu estarei morta também... – Ela engoliu em seco e entendi o que tanto a afligia.

- Mas você sabe o que é certo, não sabe?

- É difícil pensar no que é certo com seus pais mortos e uma ameaça dessas, não é?

Ela tinha razão, mas ainda sim eu queria ser capaz de ajudar de alguma forma.

- Você tem para onde ir?

Anna negou com a cabeça e eu suspirei, abrindo a bolsa e lhe entregando uma nota de cinquenta dólares.

- Sei que não é muito, mas deve dar para você dormir em algum hotel.

Ela não aceitou.

- Não sou mendiga.

- Eu sei, não disse que você era.

- Mas está ai me humilhando...

- Eu...- Tentei começar a explicar, mas desisti. Guardei a nota. – Posso então abraçá-la?

- O que? – Anna indagou confusa, como se nunca houvesse escutado algo parecido.

- Você não teve ninguém para abraçar... queria alguém para abraçar.

Anna fez uma careta.

- Olha, isso é muito bizarro! Como você consegue ter amigos escutando o que eles pensam?

- Eu não tenho. – Confessei, dando de ombros.

- É, faz sentido... - Vi um tímido sorriso aparecer no canto de seus lábios. Ela guardou a faca novamente dentro da calça e se levantou, entendi isso como um sinal verde para a quebra de barreira que havia entre nós.

- Posso?...- Fiz sinal para abraçá-la.

- Ok...mas não sou boa com isso. – Anna me alertou.

- Nem eu. – Sorri de canto me aproximando e a abracei.

Abracei-a fortemente como quem abraça um ente querido, desejando que toda aquela dor fosse retirada e, ao fim, senti que havia tocado a sua alma.

Sinceramente, eu sabia que não havia curado nem um quinto da sua dor, sabia que ela sentiria aquela perda por muitos e muitos anos possivelmente, mas também podia sentir que ela havia ficado mais leve naquele abraço.

Por anos e anos, quando eu tentara entender o que acontecia comigo, porque eu escutava o que os outros pensavam, porque eu era daquela forma, procurei em diversos lugares, até encontrar um termo que havia me chamado a atenção: “a encantadora de almas”, e apesar de achar o termo bonito e curioso nunca chegara, até então, a compreendê-lo. Agora, naquele abraço, sentindo aquela completa desconhecida tão próxima de mim, não só de corpo, mas principalmente de alma, eu sabia o real significado daquela expressão. Lembro-me de ler também que todo mundo poderia ter um pouco de encantador de almas dentro de si. Bastava se ouvir, seguir o que muitos chamavam de intuição, e querer o bem, que muitas almas seriam encantadas.

Por Lis Selwyn
23/05/2014


Um comentário:

  1. Eu chorei .-. Que lindo...! Eu amei esse conto... Muito emocionante e tocante! Alguns possuem dons, outros não, mas o que a grande maioria não sabe, ou não entendeu, é que muitas vezes não se precisa de um dom, apenas de vontade de fazer o bem, e de querer bem as outras pessoas. Parabéns pelo conto!

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