quarta-feira, 25 de junho de 2014

The Way You Look Tonight (10º Capítulo - Fanfic)

Notas: Olá meninas, estou de volta com mais capítulos Clarinas, espero que gostem! Obrigada por tudo ;)


Capítulo 10: Everything Changes


“Sometimes the things I say
In moments of disarray
Succumbing to the games we play
To make sure that it's real”
(Staind, Everything Changes)


Vanessa’s POV:


Paris – França, cinco anos antes.

Despertei com o belo amanhecer da cidade da luz. Havíamos esquecido as cortinas abertas, por isso o quarto havia sido tomado por uma intensa luminosidade. Nada que atrapalhasse o sono de Marina, que parecia embalada profundamente em seu sono. Minha cabeça girava ainda pela a noite anterior que havia sido um tanto quanto longa e badalada. Durante a tarde havíamos comparecido a uma exposição a céu aberto no Jardim de Luxemburgo, de frente para a Assembleia Nacional da França. Do ano passado para cá a carreira de Marina como fotógrafa havia decolado e em pouco tempo ela estava se tornando uma das fotógrafas mais conhecidas e requisitadas na Europa. É claro que esse posto lhe concedia alguns mimos e luxos, algo que sempre havia a encantado muito bem. A exposição não se tratava de nada que Marina vinha se especializando, o nu artístico feminino, e sim dos jardins mais famosos do mundo. Porém, por se tratar de um amigo de Marina muito querido, havíamos ganhado entrada livre para o evento. Particularmente aquele monte de verde, para mim, era uma baboseira só. Muito e lindo e tal, mas no terceiro painel eu já estava cansada, enquanto via Marina se enturmar e socializar com toda a facilidade que lhe havia sido dada.

Tudo de chato que teve a exposição ao ar livre, a festa na casa de Pierre LaFont  foi de maravilhosa. Bebidas francesas e importadas, todos os tipos de quitutes e muita música. A essa altura, nosso relacionamento não era segredo para nenhum de nossos amigos, por isso, não nos restringimos a andar de mãos dadas e fletar em  público. Assim como a carreira de Marina havia se desenvolvido, nosso relacionamento também estava melhor do que nunca. E eu estava começando a achar que definitivamente daríamos certo, que Marina seria só minha, como eu sempre havia desejado.

Voltamos para o hotel, localizado em frente ao Rio Sena, com uma das melhores vistas de Paris, por volta das cinco e meia da manhã, mas a noite ainda parecia ser uma criança para nós. Divertirmos-nos e fizemos nossa festa particular até onde a disposição e o fôlego nos acompanhou. Apesar de cansada, eu sentia meus músculos completamente relaxados, assim como eu, que estava completamente feliz e realizada.

Levantei-me, sorrateiramente, deixando que Marina continuasse deitada na cama. Ela estava linda, o tempo havia sido ainda mais generoso com sua beleza. Seu corpo de garota, que eu conhecera quando a encontrara pela primeira vez, já não a acompanhava mais. Havia desenvolvido e tornado-se o de uma linda mulher. Meus olhos acompanharam por mais alguns instantes suas curvas descobertas e sua pele pálida, fazendo um leve contraste com os lençóis brancos. Sorri, encostando-me no batente da janela e acendendo um cigarro. O fumei até que não passe de uma pequena bituca. Marina esticou o corpo na cama, espreguiçando-se, me fazendo sorrir. Eu já havia decorado seu ritual matinal ao acordar.

- Bom dia, ruivinha! – Ela exclamou as palavras que soaram como música ao meu ouvido. Observe-a alguns instantes, sorrindo e então me aproximei.

- Você sempre dormindo como um anjo...- Disse em um tom baixo e acariciei seu rosto. Marina apoiou-se em um dos braços, levantando ligeiramente o tronco para que nossos lábios se encontrassem em um beijo de bom dia. – O que temos para hoje? – Marina resmungou, preguiçosa.

- Hmmm...uma manhã inteira na cama? – Sugeri de forma maliciosa.

- Eu gostei, ruivinha! – Ela mordiscou minha orelha, mas antes que pudéssemos colocar em prática o plano, várias batidas na porta do quarto nos interrompeu.

- Não acredito. – Retruquei.

- Qual a surpresa que você está tramando? – Marina indagou, desconfiada.

- Eu juro que não tenho nada a ver com isso, mas se for uma champagne como cortesia eu estou aceitando! – Pisquei para Marina, vestido o roupão que estava pendurado na cadeira do quarto. Marina cobriu-se com o lençol, era a deixa de que eu teria que atender a porta. A pessoa do outro lado da porta mostrou-se impaciente, batucando mais uma vez na porta. – JÁ VOU! JÁ VOU! – Abri a porta e a figura de um homem careca e de terno surgiu a minha frente.

- Ce que vous voulez? – Indaguei a um homem em um francês com sotaque, perguntando o que ele gostaria. Porém, não houve resposta, o homem passou por mim, adentrando ao quarto e me empurrando levemente para o lado.

            - Isso é uma afronta, eu vou chamar a merda do segurança agora! – Ameacei, mas quando  peguei o telefone. Escutei a exclamação de Marina.

- Luigi!

Abaixei o aparelho, encarando-a.

- Você o conhece?

- Cours cette fille me connaît! * - Ele respondeu em um francês perfeito. Não aparentava estar nem um pouco contente.

- O que faz aqui? Onde está papai? – Marina perguntou assustada.

Eu não sabia muito sobre Diogo, o pai da Marina. Havia encontrado ele apenas duas vezes, mas sabia que os dois eram bastante próximos e que Marina costumava afirmar que ele era sua família, tudo o que ela tinha.

O homem de meia idade arrancou algumas revistas da bolsa carteiro de couro preta e atirou na cama onde Marina estava de um jeito tanto agressivo.
- Olha lá! – Apontei para ele, sem temer o homem que eu não fazia ideia de quem era. Mas o careca me ignorou completamente.

- Qu'est-ce que?* – O rosto do homem pálido repentinamente foi tomado por um tom vermelho vivo.

Quando meus olhos captaram o que havia nas revistas vi que a noite passada havia ido além dos limites que eu e Marina podíamos prever. Todas, sem exceção, e em diversos idiomas, traziam na capa fotos minhas com Marina na festa anterior especulando nosso relacionamento e a sexualidade de Marina.

- Essa é a minha vida! – Marina segurava com uma das mãos o lençol em torno do corpo e a outra puxava as revistas para si. – Você não tem nada a ver com isso, Luigi!

- Non? Realmente não teria...- Seu português era um tanto quanto embolado. - ...se...- Ele puxou uma das revistas e abriu na página. Jogou-a para Marina novamente. – O nome de Diogo Meirelles não tivesse aparecido. Você sabe o quanto eu e seu pai não lutamos para manter o nome dele limpo? Ele é um empresário internacional, pelo amor de Deus!

- Minha sexualidade não tem nada a ver com meu pai. Isso não irá sujar o nome dele!

- Você que pensa! Coloque quem você quiser nessa caminha imunda sua, mas escondido! Isso não pode vazar, o que faremos agora? – O homem parecia cada vez mais exaltado.

- Se isso é tão prejudicial para meu pai, por que ele mesmo não veio me ver? – Marina resmungou e eu vi o homem cerrar os punhos, ainda mais irritado.

- Por que você é a princesinha dele, você sabe que ele nunca criticaria uma ação sua.

- Não critica porque não é errado.

- Não, não critica porque ele é frouxo quando se trata de você, mademoiselle*!

- Não irei permitir que fale assim de meu pai! – Marina aumentou o tom de voz e o homem foi se aproximando. Mantive-me em alerta para interrompê-lo a qualquer instante.

O homem apontou o indicador na direção de Marina.

- Saia do trilho novamente, e eu farei você se arrepender de ter nascido, menina petulante! – O careca resmungou com raiva.

- Você é assessor do meu pai, e não o contrário. – Marina fez questão de lembrar a ele.

- Ah é? Mas sem a minha ajuda ele não seria nada. O recado está dado. – Foi a última frase do homem antes de deixar o quarto. Quando voltei a encarar Marina eu sabia que ela temia e então, tive a certeza de que aquele homem poderia ser perigoso.

...

- Mas Van...esse assessor do pai da Marina fez alguma coisa? – Flavia indagou confusa, interrompendo a história que eu contava. Eu não era a favor de contar sobre o meu passado ou o de Marina, mas nos últimos tempos estava tão cansada daquela melação entre Clara e Marina que  acreditei ser o melhor a fazer, ao menos desabafar poderia me dar a falsa impressão de estar livre daquilo tudo, e isso já era melhor do que nada. Eu tinha um passado com Marina, tínhamos uma história, coisa que a dona de casa lá estava longe de ter. Flavia havia insistido para que eu contasse a ela sobre o tempo que passei na Europa com Marina e o por que de, mesmo tendo terminado, continuávamos juntas.  – Quer dizer, eu pedi para me contar o que fez vocês se unirem e...

- Calma...a história é muito mais longa do que parece! – Alertei-a, mas antes que pudesse continuar escutamos o telefone tocar pela terceira vez. – Quer apostar quanto que elas estão no rala e rola de novo? – Resmunguei mais para mim mesma do que para Flavia, que nada disse, e apertei o botão para atender a chamada do telefone. – Alô? – Indaguei para o outro lado da linha. – Ivan? – Perguntei assim que reconheci a voz do menino. – Claro, claro, já vou levar o telefone para a sua mãe!


Clara’s POV:

Desde que eu havia atendido o telefonema de Ivan, havia também perdido todo o senso de razão que tinha. Eu estava preocupada com Cadu, óbvio que estava, mas ainda mais com Ivan que havia presenciado tudo. Dirigi de Santa Tereza até meu antigo apartamento, e só Deus sabe como consegui chegar lá.

- Mããããe!- Ivan correu para os meus braços quando me viu surgir na porta do elevador. Abracei meu filho, levantando-o por alguns instantes do chão. Haviam lágrimas por toda parte de seu rosto. Na porta do nosso apartamento estava Helena, Nando e Felipe, que falava ao telefone, provavelmente com a Dra. Silvia.

- Ele desmaiou irmã, ...chamamos o ambulância que a qualquer momento deve estar chegando.

Abracei Ivan mais forte, que ainda não havia me soltado, sem saber exatamente o que fazer. Meu desejo era tirá-lo daquela cena, afastá-lo dali. Mas eu não podia ser tão egoísta, se tratava do pai dele estirado naquele chão.

- Filhote...a mamãe promete que vai ficar do seu lado todo o tempo, tá bom? – Sussurrei para ele, e ainda que bastante abalado, o menino afirmou com a cabeça.

Não mais que cinco minutos depois, Cadu já estava dentro da ambulância.

- Acompanhante? – Indicou um dos paramédicos antes de fechar a porta do veículo.

- Eu...- Logo me ofereci.

- Esposa? – Indagou o paramédico.

- Ex-...- Mas não terminei de falar, Nando rapidamente se ofereceu.

- Eu vou, Clara, não se preocupe...é melhor que você vá para o hospital com Ivan no carro.

Seguimos no carro de Marina, que eu havia estacionado na frente do prédio, porém quem foi dirigindo foi Helena, enquanto que no banco de trás eu e Ivan fomos abraçados.

Beijei sua cabeça, afagando seus lindos fios castanhos claros.

- Mãe...o coração grande do papai vai aguentar né? – Ivan me perguntou a certa altura.

- Sinceramente, filho?

Os olhos claros do garoto me encararam e ele concordou com a cabeça.

- Sim, mãe.

- Eu não sei...mas eu sei que estaremos todo o tempo ao lado dele, combinado? – Ivan concordou com a cabeça. Eu era contra levá-lo para o hospital, mas não havia outra solução, uma vez que ele estivera todo o tempo ao lado do Cadu desde o momento que o chef passara mal.

Chegamos ao hospital e nos apressamos para a sala de espera, onde Felipe, que havia vindo na ambulância, veio nos recepcionar.

- Clara, eu acho melhor vocês se acomodarem. – Meu irmão informou.

- O que aconteceu, Felipe? – Indaguei preocupada e ele fez menção de andarmos pelo corredor. Eu e Helena entendemos o que ele quis dizer. – Filho...você fica aqui com a tia Helena? – Ivan ameaçou a dizer que não ficaria, mas como se estivesse lendo seus pensamentos, complementei. – Fica filho...a Dra. Silvia pode aparecer a qualquer momento, e ela pode falar coisas importantes...- Abaixei o tom de voz, sussurrando no ouvido de Ivan. – A tia Leninha é meio esquecida, lembra? ...acho melhor içar aqui para contar pra mamãe direitinho o que ela disser.

Ivan acabou concordando, e pude assim seguir ao lado de Felipe por um dos corredores do hospital. Meu irmão trajava um jaleco branco por cima das roupas e cumprimentava sempre os funcionários que passavam por ele. Quando chegamos próximos a um grande janelão de vidro, Felipe parou, encarando a vista dali.

- Felipe...para com isso! É tortura! – Retruquei com ele, estava aflita e nervosa duplamente.

- Irmã...as notícias não são das melhores...

- O QUE ISSO QUER DIZER? – O interrompi no mesmo instante, imaginando o pior. Senti minhas pernas ficarem fracas.

- Calma...por sorte ele foi trazido a tempo pelo o hospital. Seu desmaio foi causado por uma falha em seu coração que não estava dando conta de bombear o sangue para o rosto. Você sabe o quanto ele foi advertido para pegar leve em todos os sentidos. Ele está acordado, porém no guardo, aguardando seus sinais vitais se estabilizarem para começarmos a operação. Não se preocupe, ele está sendo monitorado 24 horas.  O Ideal seria operá-lo agora, porém sua pressão está muito alterada e isso pode trazer complicações graves durante a operação.

Era muita informação e minha mente pareceu ser sido bombardeada em um tiroteio. Segurei no ombro de meu irmão, temendo a qualquer momento fraquejar e perguntei a ele.

-...Você acha que podemos vê-lo antes da operação? Eu? Ivan?

- Olha...ele não pode sofrer emoções fortes, então eu evitaria...

- Eu sei, Felipe...não se preocupe! Eu só acho que Ivan precisa vê-lo...se...acontecer alguma coisa, e Deus queira que não aconteça nada, eu não quero que Ivan tenha a última lembrança de seu pai desmaiado no apartamento. Eu preciso disso para mostrar a ele que Cadu irá se recuperar.
- Tudo bem, Clara, eu falarei com Silvia e logo chamaremos vocês, mas por favor avise o Ivan que...

- Eu sei, eu sei!

Antes de voltar para a sala de espera e avisar Ivan, peguei o celular na bolsa e disquei o número de Marina, havia prometido antes de deixar a casa que ligaria para ela.

- Amor? – Ela atendeu na primeira chamada. – Encostei as costas no vidro da janela, era tão bom escutar sua voz.

- Oi...eu...acabei de falar com Felipe e...

- O que aconteceu, Clara? Você quer que eu vá até ai, meu amor? – Marina perguntou de uma forma toda carinhosa.

-...eu adoraria, querida,...mas minha família está chegando, conhecidos do Cadu...eu não acho que seja uma boa. – Tentei ser sensata.

- Gostaria de estar ao seu lado...poder ajudar...com um abraço que fosse.

Meus olhos encheram de lágrimas, não dava para ignorar dez anos. Não dizia isso por ainda amar Cadu, eu estava apaixonada por Marina e nada mudava isso, porém, eu e Carlos Eduardo havíamos passado por muita coisa naqueles últimos anos que refletiam na minha aflição atual.

- Eu sei, querida...eu sei...- Limpei as lágrimas com a manga da blusa. – Felipe veio me dizer que o coração de Cadu está falhando...irão tentar uma operação antes de partir para a opção de transplante...mas a operação não foi realizada ainda porque seus sinais estão muito alterados.

- Eu...eu sinto muito, Clara. Gostaria que houvesse algo que eu pudesse fazer...ou dizer,...mas não creio que nada seja o suficiente.

- Eu sei...isso é tão...- Não encontrei palavras para descrever.

- Como está Ivan? – Marina perguntou pelo meu garoto e achei linda sua preocupação.

- Ele está assustado, Marina. Tem que ver, o bichinho chega a estar com os olhos arregalados! Mas tentei acalmá-lo...ainda que eu tenha certeza que não fui bem sucedida nisso.

- Você é uma ótima mãe, Clara! Eu tenho certeza que você Dara o devido amparo e apoio ao Ivan nesse susto...tudo irá ficar bem, em breve ele estará brincando com Cadu de novo na praia...e...tudo vai ficar bem! – Eu sabia que Marina dizia aquilo com sinceridade, embora tivéssemos desavenças com Cadu nos últimos tempos nunca era o suficiente para desejá-lo mal, ainda mais considerando o fato da paixão de Ivan por seu pai.

- Amor, eu tenho que ir...obrigada...suas palavras sempre me ajudam! – Agradeci de forma verdadeira.

- Eu te amo...muito! – Marina disse ao telefone e aquela confissão me arrancou um sorriso de canto, mesmo ela tendo me confessado aquilo outras vezes.

- Eu também te amo. E se você achava que não poderia dizer algo que me fizesse sentir um pouquinho melhor, você acabou de achar! – Confessei a ela e logo depois desliguei o telefone. Quando retornei a sala de espera, voltei a abraçar Ivan.

- A Dra. Silvia ainda não apareceu, mãe! – Ivan resmungou, parecia mais calmo, mas ainda sim eu percebia o quão tenso estava.

- Calma meu amor....em breve...- Mas fui interrompida pela chegada da própria.

- Ivan...um passarinho me contou que você gostaria de ver seu pai antes de cuidarmos do coração dele, é verdade? – A médica loira e simpática perguntou.

- Olha lá, cara, não disse? – Baguncei o cabelo de Ivan e imediatamente o garoto olhou para mim sorrindo, parecendo ligeiramente mais animado.
- Eu quero! – Ele exclamou.

- Mas olha...seu pai ta com o coração fraquinho ainda, eles precisam concertar para ficar fortão. Então...pega leve com ele, tá filho?

- Pode deixar mãe, pow, eu sei disso...não sou tão criança né! – Ivan disse como se fosse óbvio e correu até onde estava a Dra. Silvia. Ambos caminharam lado a lado até sumirem naquela imensidão branca.



 Notas finais: 

* Cours cette fille me connaît!: É claro que essa garota me conhece.
* Qu'est-ce que: O que é isso?

* Mademoiselle: Senhorita

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