quinta-feira, 19 de junho de 2014

The Way You Look Tonight (7º Capítulo - Fanfic)

Notas: Olá meninas, peço desculpa pela demora para atualizar aqui, mas acabei pegando uma gripe e mal consegui entrar no computador. Espero que a espera do capítulo tenha valido a pena e que vocês gostem, tenham uma ótima leitura! Beijinhos
Músicas:



Capítulo 7: Incancellabile

“A volte mi domando se
Vivrei lo stesso senza te
Se ti saprei dimenticare
Ma passa un attimo e tu sei
Sei tutto quello che vorrei
Incancellabile oramai “


Marina’s POV:

Fiquei com Clara e Ivan até ela pegar no sono, observando ambos e desejando que aquela fosse a família que eu tanto buscara todos esses anos. Depois, sorrateiramente sai do quarto, deixando ambos descansar. Em meu quarto, fiquei imaginando como seria nossa vida dali em diante, tudo enfim parecia ter tomado um rumo certo, tudo parecia se encaminhar para o “felizes para sempre”.

Irônico falar de feliz para sempre, eu sempre achei que eu era feliz. Sempre achei que tinha tudo que queria, sempre achei que a vida que eu levava era o suficiente para alimentar minha alma, para me fazer completa. Porém, só quando conheci Clara descobri o quão vazia minha alma era. O quão sozinha eu era, apesar de estar sempre cercada por pessoas. Só quando a conheci descobri o que era felicidade completa, pois era assim que eu me sentia ao seu lado, nos momentos que estávamos juntas. Mesmo ainda quando não havíamos assumido nada, mesmo quando ela era ainda meu amor platônico, mesmo quando Clara não passava de um sonho. Estar ao seu lado me causava uma alegria, uma felicidade tão grande que mal cabia no peito.

Dormi depois de muito sonhar acordada, muito planejar. Ainda tinha vergonha e receio de falar em voz alta meus planos, não ignorava o momento crítico pelo qual ela passava. Se assumir nunca era fácil, ainda mais na situação dela quando estava envolvida uma criança.  Mas no momento certo, pretendia contar tudo a ela, pretendia viver tudo que tínhamos para viver, tudo que a vida guardava para nós. Era apenas uma questão de tempo, eu ficava a me convencer.


“Sembrava un'altra storia che
Il tempo porta via con se
Tu non lasciarmi mai
Tu non lasciarmi...
E più mi manchi e più tu stai
Al centro dei pensieri miei
Tu non lasciarmi mai
Perché oramai sarai
Incancellabile”

Acordei no dia seguinte de uma forma um tanto quanto peculiar. Meu corpo se arrepiou. O toque de seus dedos contornaram minha cintura, braços e ombros. Ao sentir seus lábios em meu pescoço, me estremeci, quase não conseguindo me conter. Abri os olhos, mesmo temendo que fosse um sonho, como tantas outras vezes minha mente havia criado, precisava saber se era realmente Clara que estava ali. Meus olhos se depararam com a morena bem próxima de mim. Clara estava deitada de lado, me abraçando com um dos braços e seus olhos âmbar encaravam meu rosto. Quando abri os olhos, percebi que os seus se fixaram aos meus. Sua mão acariciava meu rosto e acabei sorrindo por seu toque, por sua presença. Seu perfume tomou conta de todo o meu quarto, e para mim, aquele cheiro havia virado sinônimo de casa. Eu, que sempre me fizera de forte, que nunca assumira ser frágil, agora me via rendida, me sentia segura só com sua presença por perto, seu cheiro e seu carinho. 

- Clarinha...como é bom acordar assim! – Minha voz soou mais boba e apaixonada do que eu imaginava, mas isso pareceu derretê-la.

- Eu não aguentei vê-la dormir aqui sozinha...precisei me deitar aqui, estar próxima a você...senti tanto sua falta a noite passada! – Clara confessou ao meu ouvido. Puxei seu corpo junto ao meu e nos entreolhamos por alguns instantes. – Nina...você....você falava sério na noite anterior? – Entendi o que ela queria saber.

- Eu nunca falei tão sério na minha vida, Clarinha! Você é o amor da minha vida, eu quero você...só você...eu quero um dia poder dizer que você e o Ivan são minha família, se assim ele permitir, é claro!

- Eu quero tanto...tanto ser sua mulher!- Clara confessou em voz baixa e vi seus olhos brilharem, refletindo toda a alegria que havia nela. Beijei seus lábios desta vez devagar, sentindo a maciez deles, o gosto de seus lábios até nossas línguas se encontrarem. Clara pareceu querer mais, diferente de mim, que tentava me segurar para que aquele beijo não se tornasse tão perigoso, ela aproximou o corpo mais do meu, passando uma das pernas por cima de meu corpo na altura de minha cintura e intensificou o beijo. Sem conseguir resistir, correspondi, explorando aquele beijo até sentir meu corpo todo estremecer, e foi ai que pouco a pouco fui parando com alguns selinhos. Ao último, levantei os olhos que encontraram os dela, já abertos.

-...e o Ivan? – Indaguei em um sussurro quando a realidade e a sensatez pareceu me vir a mente, mostrando minha preocupação, ele podia a qualquer momento aparecer, e eu não queria a expor para o filho. Imaginava que nos momentos com o pai ele já era envenenado o suficiente.

- Shhh...sh...- Ela voltou a me beijar sem responder, sua mão desceu por meu corpo tão frágil no momento, coberto apenas por uma fina camisola, explorando-o, acariciando cada centímetro que estava ao alcance de suas mãos. Suas unhas arranhavam levemente meu corpo por cima da camisola em um carinho gostoso e provocativo.

- Clara...- Tentei mais uma vez perguntar, ofegantemente, mas foi uma tentativa falha, minha voz sumiu no instante em que tentei pronunciar seu nome.

Reconhecendo minha preocupação, Clara desviou-se do beijo que depositava em meus lábios, seguindo com pequenos beijos pelo rosto até chegar ao meu ouvido. Seu corpo havia ido parcialmente para cima do meu e aquele contato provocava sensações ainda mais perigosas em mim. Estremeci mais uma vez, encolhendo os ombros quando senti sua língua contornar o lóbulo de minha orelha lentamente.

- Eu já o levei para a escola...- Ela sussurrou em meu ouvido mordiscando levemente minha orelha. – Somos só eu e você...- Sua voz soou sexy, incrivelmente sedutora que não me contive. Eu a virei, trocando nossas posições, desta vez meu corpo estava sobre o seu. O coração de Clara saltitava tão alto que podia escutá-lo. Meus braços se apoiavam ainda na cama, evitando que eu soltasse totalmente meu corpo no dela. Rocei levemente minhas pernas entre as suas, sentindo seu corpo, embaixo do meu, se arrepiar e se tornar ainda mais quente. Voltei a beijá-la, desta vez, não detivemos tempo, nos beijávamos com volúpia, com todo o desejo que havíamos abrigado dentro de nós por todos esses meses. Os olhos de Clara estavam cerrados, mostrando que ela primeira vez ela estava totalmente entregue a aquele amor. Desci minhas mãos, acariciando sua barriga por baixo da blusa branca de crochê que ela usava. Ao mesmo tempo em que sua pele estava extremamente quente, estava também completamente arrepiada.

“Con la tua voce l'allegria
Che dentro me non va più via
Come un tatuaggio sulla pelle
Ti vedo dentro gli occhi suoi
Ti cerco quando non ci sei
Sulle mie labbra sento la voglia che ho di te”


- Eu quero ser sua mulher, por favor...me faça sua mulher! – Ela voltou a sussurrar, ainda mais ofegante que antes, parecia suplicar por aquele momento nosso. Sorri quando nossos olhos enfim se encontraram. Clara parecia tranquila e feliz, o que me impulsionou a retirar sua blusa. Distribui diversos beijos em seu pescoço entre algumas mordiscadas que cada vez a faziam se encolher ainda mais. Meus olhos desceram agora por todo seu tronco descoberto, a não ser pelo sutiã azul escuro, que era a única peça que ainda permanecia nela. Acariciei seu rosto.

- Você é linda...tão linda...eu nunca vi mulher tão bonita!- Confessei em voz baixa, descendo meus beijos pelo colo de seus seios. Minhas mãos desciam pela lateral de seu corpo, apertando levemente a cintura da morena. Rocei meus lábios por sua pele, fazendo o contorno do sutiã com eles. Seu gemido baixo me fez arrepiar. Rapidamente as mãos de Clara buscaram minha camisola, puxando-a, me obrigando a tirá-la. Retirei-a, ficando apenas de calcinha. Quando nossos corpos voltaram a se encontrar, quase não consegui me conter, a corrente elétrica que percorreu nossos corpos foi muito maior em função daquele contato tão íntimo, tão livre de tecidos.

Subi minhas mãos pelas costas de Clara, soltando seu sutiã e retirei a peça. Desci com a palma da mão estendida, acariciando seu ombro e descendo minha mão até as curvas de seu seio direito. Senti o biquinho de seu seio eriçado, assim como estava todo o resto de sua pele. Sorri, mais uma vez encarando-a, mais uma vez trocando votos de cumplicidade e confiança e escorreguei minha mão até a barriga de Clara. Direcionei meus beijos desta vez para seus seios, rodopiei minha língua por eles, e quando levantei os olhos para encará-la, Clara se contorcia levemente na cama, levando a cabeça para trás e tentava controlar os gemidos que por vezes ameaçavam a escapar por seus lábios entre abertos. Ela não era a primeira mulher que eu estivera, longe disso, mas eu nunca havia sentido nada parecido do que eu senti ao vê-la ali totalmente entregue, do que eu senti ao saber que o tamanho prazer que eu podia proporcionar a mulher que eu amava. Aquela sensação me consumiu totalmente, como uma chama que percorre cada célula do seu corpo, aquecendo-a, queimando-a. Rapidamente o fazer senti-la prazer se tornou um vício e cada vez mais quis vê-la se entregar, quis proporcionar aquela sensação a ela. Desci mais minha mão, desta vez até o botão de sua calça, abrindo-a. Eu precisava conhecê-la mais, saber qual era seu gosto.

“Così profondamente mio
Non ho mai avuto niente io
Tu non lasciarmi mai
Tu non lasciarmi...
E più ti guardo e più lo sai
Di te io m'innamorerei
Tu non lasciarmi mai
Tu non lasciarmi...
Non farlo mai perché”

Clara’s POV:

- Marina! – Gemi baixo, chamando por minha amada quando ela abocanhou meu outro seio. Apertei a lateral da cama, que fora a base sólida mais próxima de mim que encontrei. Ela era capaz de causar todas as sensações possíveis em mim. Suas mãos percorriam desgovernadamente meu corpo, me estremecendo, fazendo com que eu me contorcesse naquela cama clamando por seu amor. Seus olhos pareciam me deixar nua, e como só a sensação de parecer nua, não bastasse, Marina tirava uma a uma das peças de minha roupa. E eu estava totalmente rendida ao seu amor.

Tentava por vezes encontrar seu corpo com minhas mãos, sentir sua pele, seios, mas eu pouco conseguia me manter no controle ali, quando menos esperava ela já havia tomado novamente as rédeas da situação e eu me via ali suplicando por aquele amor que só descia dentro de mim carregado de desejo. Repentinamente, senti minhas mãos serem erguidas até o alto da cama, ela as segurava como se as prendesse. Marina já havia se livrado da minha calça jeans e estávamos ambas apenas de calcinha. Passando seu corpo pelo meu, ela deslizou-se até chegar novamente próxima ao meu ouvido. Eu sentia que aquela fricção entre nossos corpos me faria desmanchar ali em qualquer momento. Marina ainda segurava meus braços, sem me dar escolha.

- Eu disse que iria te mostrar como pode ser bom...chegou a hora, Clarinha! – Escutei-a sussurrar em meu ouvido, confessar suas reais intenções. Sua voz estava levemente rouca e tão ofegante quanto a minha. Desejei-a ainda mais depois daquelas palavras murmuradas ao meu ouvido.

- Chegou a hora? – Repeti com dificuldade. – Para mim você já está me mostrando desde o momento que tocou meu corpo. – Confessei e ela sorriu com malícia ao escutar isso. Sua língua passou pelo contorno de meu pescoço e uma das minhas mãos se soltou, cravei as unhas azuis em suas costas e a senti perder o eixo também, se contorcendo, dançando em meu corpo, o que me enlouqueceu ainda mais.  – Você vai me fazer ir a loucura! – Gemi baixinho.

- Se vou, Clarinha...é o que eu pretendo! – Ela mais uma vez sussurrou com malícia, roçando parte da coxa entre minhas pernas que ansiaram ainda mais por seu toque.

“Se guardo il cielo
Io sento che sarai
Incancellabile oramai

Tu non lasciarmi mai
Tu non lasciarmi...

Incancellabile tu sei
I miei respiri e i giorni miei
Tu non lasciarmi mai
Tu non lasciarmi...”

Soltou minha outra mão e então ambas minhas mãos percorreram seus cabelos e costas até onde era possível alcançar, conforme Marina descia abocanhando cada pedaço de meu corpo.  Quando sua língua encontrou o final de minha barriga, beirando o inicio da calcinha, senti um formigamento no ventre, uma intensa queimação.

- Eu preciso de você...preciso! – Foi tudo o que eu consegui dizer, mas isso pareceu deixá-la satisfeita, pois Marina retirou com cuidado a peça azul escura que combinava com o sutiã. Sua mão percorreu toda a lateral de minha perna e instantaneamente eu afastei-a, por mais bamba que elas estivessem, permitindo que a moça se encaixasse entre elas. De beijo em beijo Marina foi me deixando cada vez mais sensível até me enlouquecer completamente.

“E si fa grande dentro me
Questo bisogno che ho di te
Tu non lasciarmi mai
Tu non lasciarmi...
E più mi manchi e più tu sei
Al centro dei pensieri miei
Tu non lasciarmi mai
Tu non lasciarmi...
Da sola senza te”


Nosso desejo parecia nunca se acabar, fizemos amor novamente tantas outras vezes até nossos corpos e músculos estarem moles o suficiente para se quer conseguirem levantar.

- Isso é incrível! – Sussurrei quando deitei a cabeça no travesseiro. Ainda estava ofegante. – é...eu não sei, não consigo encontrar palavras!
Sorri e quando virei o rosto para encarar Marina seu sorriso era contagiante. O suor por seu rosto ainda estava presente, sua voz bastante ofegante também denunciava, mas ela estava linda.

- Olha, você é uma aluna em potencial, Clarinha! – Marina brincou depois de ter sido minha vez de tentar proporcionar a ela o imenso prazer que ela me dera ali naquela cama. Ambas gargalhamos e eu abracei seu corpo.
- Eu não quero nunca mais, nunca mais sair daqui! – Deitei no colo de seus seios, enquanto meus olhos observavam seu lindo corpo nu. Ela era incrível, era linda...e era minha.

Senti seus dedos afagarem meu cabelo e fechei os olhos.
- Esse é nosso ninho de amor, para sempre, meu amor! – A castanha sussurrou em meu ouvido e a abracei mais junto de mim desejando que aquele momento durasse eternamente.

“Ora e per sempre resterai
Dentro i miei occhi...
Incancellabile!”
(Laura Pausini, Incancellabile)








Vanessa’s POV:
“I am an architect
Of days that haven't happened yet
I can't believe a month is all it's been
You know my paper heart
The one I filled with pencil marks
I think I might have gone and inked you in”

A maioria das vezes naquele estúdio eu é que precisava tomar as rédeas, ser a responsável ali. Sempre fora assim, até mesmo quando era somente eu e Marina, até mesmo quando ainda viajávamos o mundo juntas. Por diversas vezes minha maior preocupação fora seus porres, que a faziam perder completamente a noção de espaço e de responsabilidade, agora, minha maior preocupação já não eram mais as bebidas que a cercavam, e sim Clara.
Marina sempre fora de se apaixonar fácil. Encantava-se com extrema facilidade e quando menos esperávamos, ela anunciava um novo amor, mas também se “desapaixonava” com a mesma facilidade, deixando diversos corações em nossa trajetória arrasados. Nunca fora uma grande ameaça para mim as garotas que ela saía enquanto não assumimos nosso namoro, tampouco as que ela saiu depois, eu sempre sabia que era para mim que ela voltava. Nunca havia sido uma ameaça, pelo menos até Clara.

Naquela manhã, quando acordei cedo para distribuir as tarefas para Gisele e Flávia, me deparei com Clara voltando da escola do Ivan, que havia passado a noite na casa da Marina, na nossa casa.  Ela havia acordado cedo para levar o garoto, e assim que retornou, não pude deixar de perceber que a morena havia se encaminhado diretamente para o quarto de Marina, o que me deixou completamente enciumada, eu assumo. Nossos horários não costumavam ser muito rígidos, Marina costumava acordar por volta das onze da manhã para ter tempo de ficar até a hora do almoço tomando sol na piscina e os ensaios em geral eram no período da tarde. Mas quando às duas horas da tarde se aproximavam, eu senti que era hora de intervir.

- Van...eu acho melhor não! – Flavia tentou me alertar, quando levantei da cama do quarto que dividíamos.

- Ela precisa saber que os horários ainda se mantém, em breve teremos uma fila de modelos lá embaixo e Marina está onde? Fodendo com a Clarinha que resolveu brincar de ser bissexual. – Meu tom foi ainda mais irônico do que eu pensava, mas era verdade.

- Você e eu sabemos porque você quer ir lá. Não é para chamar a Marina.
- O que você está insinuando?

- Você gosta de se martirizar, de sofrer.  Marina não é criança para você ficar de babá dela.

- Um dia ela irá reconhecer tudo o que eu faço por ela. – Resmunguei, deixando Flavia sozinha no quarto. Segui para o quarto de Marina, e como sempre fiz, fui entrando sem bater na porta.

- Marina...eu acho que você deveria...- Mas minha voz de congelou, assim como meu corpo. Diante dos meus olhos estava Clara, nua e enrolada em um lençol.

- Vemmm, Clarinha, por que demora tanto? A água já esta quente! – Marina dizia do banheiro, sem imaginar, provavelmente, que eu havia adentrado ao quarto. Clara estava congelada, só tivera forças para apertar ainda mais o lençol contra seu corpo a fim de cobri-lo. – Clarinha...o que...- Marina saiu do banheiro da suíte em busca de Clara, quando congelou também ao me ver. Estava completamente nua. – VANESSA! – Ela se apressou até a cama, pegando o cobertor e enrolando em seu corpo, como se eu não o conhecesse. - ...Quantas vezes eu já...

Mas a interrompi, não aguentaria tamanho desaforo, já me bastara aquela cena, não precisava de uma bronca também.

- Era só para avisar que gozar não paga suas contas! – Virei minhas costas, recusando a assistir mais daquela cena e deixei o quarto.

- Você viu o que não queria, não foi? – Perguntou Flavia, quando entrei no quarto batendo a porta.

- Não começa! – Resmunguei, deitando na cama e cruzando os braços.

- Você...- Ela tentou mais uma vez se aproximar, mas cortei imediatamente.

- Vê se me erra, Flavia! Vai dar uma volta, ver se eu to na esquina...- Apontei a porta de saída do quarto, e apesar de não ter obrigação nenhuma de acatar minhas ordens, agradeci por Flavinha sair do quarto.

Eu ainda tentava controlar toda a raiva que havia me dominado depois da cena que presenciara. Marina é minha, sempre foi. Clara irá quebrar a cara dela, e ela virá correndo para mim, como já veio tantas outras vezes.

“Little by little
Inch by inch
We built a yard with a garden in the middle of it
It ain't much
But it's a start
You got me swaying right along
To the song in your heart”

Roma- Itália, seis anos antes.

Dividíamos um quarto de hotel em Florença. Havia dois anos que eu conhecera Marina em Amsterdã e ela havia me convidado para fazer parte da sua equipe. Como eu não tinha exatamente nenhum emprego fixo na Europa, nem voltar para o Brasil era uma opção, acabei aceitando. Dávamos-nos bem, incrivelmente bem, a ponto de eu acreditar que havia achado a mulher da minha vida. Ela não era o tipo de mulher que podia ser aprisionada, só saberia viver solta, e apesar de conviver com diversas mulheres, se apaixonar, eu sabia, havia aprendido nos dois anos que vínhamos convivendo, que ela sempre acabava voltando para mim. Que eu era sua favorita, sua escolhida. E eu me contentava com isso.

Estávamos na Itália para uma exposição de fotos, sua primeira exposição sobre moda. Havia sido uma grande conquista, pois Florença além de ser considerada o berço do Renascimento, é também uma das capitais da moda. Qualquer fotógrafa venderia a alma para expor lá, e Marina havia conseguido. Mas quando adentrei ao nosso quarto, no terceiro dia de exposição, a castanha estava deitada em sua cama aparentando estar completamente triste.

- O que aconteceu, meisje? – Eu ainda a chamava da mesma forma que a chamara da primeira vez que nos conhecemos. Sentei na beira da cama, próxima de seu corpo e acariciei seus longos fios castanhos.

- Ai, Vanessinha...eu não sei...- Marina fez um biquinho fofo, cheio de charme que só ela sabia fazer, mas eu tinha a certeza que a tristeza dela tinha algum motivo.

- Eu sei que há algo...-Insisti, beijando a ponta de seu nariz, o que fez com que Marina sorrisse.

- Meu pai está me atormentando...diz que quer eu volte a morar com ele...e...-Marina fez uma pausa. – E... Sabe aquela morena do cabelo curto e olhos azuis?

- Hm...- Ri. – Eu sabia que havia rabo de saia nessa história. – Brinquei com ela.

- Eu achei que seria ela, que ela fosse o amor da minha vida...mas...não era ela. – Marina deu de ombros. Ela estava saindo com essa garota não tinha nem dois meses. Acabei rindo. – Por que você está rindo?

- Nada... nada...- Ri novamente. – O que foi dessa vez? Qual era o defeito dessa? Bafo de onça como romena? ...ou toma banho só três vezes na semana como a francesa?  Ou tem mal gosto para perfume como aquela americana?

Marina acabou rindo.

- Eu sou muito chata né? - Ela fez uma careta.

- Não, você só se enjoa fácil das pessoas...- Dei de ombros, para mim isso era ótimo.

“And a face to call home
A face to call home
You got a face to call home”

- Na verdade eu não tenho grandes problemas com a Yeva... – Esse era o nome da Russa, significava vida, mas para mim, de vida aquela mulher não tinha nada. -...mas ela é bem...- Marina fez mais uma careta, indicando que estava de saco cheio. -...bem grudentinha, e você sabe que eu sou...

- Livre. – Resumi a palavra que a castanha não encontrava.

Marina abraçou minha cintura, deitando a cabeça em meu colo. Acariciei seu cabelo.

- Você me entende, ruivinha. Só você me entende...- Ela fechou os olhos.

“So good you didn't see
The nervous wreck I used to be
I never know a man could feel so small
You never look at me
Like I'm a liability
I bet you think I've never been at all”


Fechei os olhos também sentindo sua colônia inebriante, era o perfume novo do Calvin Klein. Eu conhecia um a um de seus perfumes.

- Sabe...eu acho que no final das contas iremos acabar juntas! – Marina confessou em voz baixa, cortando o silencio depois de algum tempo. Eu havia sido pega de surpresa, e por mais que houvesse possibilidade dela estar apenas brincando, eu quis que aquilo fosse tão verdadeiro quanto era o que eu sentia em meu coração por ela.

Abri os olhos para encará-la, mas a castanha ainda tinha os olhos fechados. Parecia aproveitar o cafuné que eu fazia em seus cabelos.

- Você acha? – indaguei, cheia de esperanças.

- Claro, por que não? – Desta vez ela abriu os olhos. E trocamos um sorriso. – Você é gata, entende de fotografia, beija bem, está sempre comigo, aguenta um bom porre tanto quanto eu...- Acabei rindo, na verdade cada palavra dela me enchia mais de esperança. – Acho até que somos almas gêmeas! – Marina afastou brevemente a regata que eu usava, descobrindo uma parte da minha barriga, deixando a amostra minha pele pálida e sardenta que eu tinha e beijou-a levemente. Senti um arrepio tomar todo meu corpo, ela adorava trocar carinhos assim, mesmo que não estivéssemos efetivamente juntas.

- Marina! – Exclamei, abaixando minha blusa, mas acabe rindo.

- Ok...ok..parei já! – Ela levantou os braços como se fosse inocente e voltou a se sentar.

A encarei, Marina havia se tornado meu lar, ela era a família que eu tinha e embora quase nunca falássemos sobre nossas famílias, eu sabia que era a dela também.

“Little by little
Inch by inch
We built a yard with a garden in the middle of it
It ain't much
But it's a start
You got me swaying right along
To the song in your heart
And a face to call home
A face to call home
You got a face to call home”


- Eu acho que dia desses a gente devia fazer uma loucura! Pensa, Vanessinha...- Marina falou, largando-se novamente na cama e esticando os braços para o alto, fazendo uma câmera imaginaria com as mãos como se estivesse focalizando o teto.

- Que tipo de loucura?! – Indaguei, deitando-me de bruços ao seu lado. Havíamos já feito tantas loucuras, desde nos embebedar com os mais diversos tipos de bebida durante esses dois anos até visitarmos um a um dos países na Europa, que vinha sendo nosso plano recorrente.

- Hm...não sei! Transar no Coliseu! – Marina abriu os braços, encarando o teto e gargalhando.

- O que? – Perguntei, incrédula, emburrando levemente o corpo dela,  mas acabei rindo também.

- Eu to brincando...só estou dizendo que eu acho que deveríamos ter mais aventuras juntas!

- Juntas?! – Sorri, encarando-a.

- Sim, juntas, eu e você...acho que funcionamos bem!

Meus olhos encaram Marina, seu rosto, sorriso, a forma como se divertia encarando o teto. Talvez fosse alguma bebida ou baseado que fumara antes, mas eu a adorava ver assim, radiante. A tristeza que antes a assombrava parecia ter se evaporado totalmente. Ela ainda ria, quando tomei seus lábios para mim, beijando-os com toda a vontade. Marina não recuou, não recusou, para minha surpresa ela correspondeu ao beijo, acariciando meu rosto, cabelo e ombros de uma só vez.

“Maybe I can stay awhile
Maybe I can stay awhile
Maybe I can stay awhile
I'm talking like all of the time
Maybe I can stay awhile
Maybe I can stay awhile
Maybe I can stay awhile
I'm talking like all of the time “


- Eu te amo…te amo, Vanessinha! – Marina sussurrou entre lábios durante nosso beijo. Aquelas palavras haviam soado como música ao meu ouvido, me levado ao céu e voltado.

- Eu também te amo, meisje! - Exclamei ao seu ouvido e voltamos a nos encarar.

- Talvez seja precipitado...talvez eu não seja a mulher certa para...- Eu conseguia imaginar o que Marina fosse dizer, mas com medo de ser apenas mais só uma fantasia da minha cabeça, fiz questão de garantir a ela.

- Eu te amo...te amo desse seu jeitinho confuso e maluco. Te aceito como é...

- Eu sei, ruivinha...eu sei...- Ela acariciou meu rosto e então sorriu cheia de encanto. Mordeu o lábio inferior daquela forma tão natural, mas também tão provocativa. – É por isso que eu vou dizer o que estou prestes a dizer...- Senti meu coração acelerado. Como se estivesse vivendo meu primeiro amor, esperando por aquelas tão aguardadas palavras que se deseja ouvir na adolescência. -...eu acho que devíamos seguir nossa vida juntas. Juntas para valer...como...- Marina hesitou. Meus olhos não haviam desviado se quer um instante daquelas orbes esverdeadas. -...como namoradas!

- Você está falando sério? – Por mais que tivesse imaginado aquelas palavras diversas vezes em minha mente, ainda sim havia sido surpreendida.
- Você acha que é errado? – Marina ficou em dúvida com a minha reação.
- Não...você é...- Mas ela me interrompeu.

- Tudo que eu tenho. Você é tudo o que eu tenho, de verdade! E eu quero que seja assim, ruivinha! – Marina segurou minhas mãos, levando-as até seu rosto e deu um beijo em cada uma.

“And a face to call home
A face to call home
You got a face to call home”
(John Mayer, A Face To Call Home)

- Eu sempre serei sua…você sempre terá a mim. Você é minha família!

- E você a minha! – Marina sorriu mais uma vez e nos beijamos.

...

Aquelas lembranças dolorosamente vieram a minha mente enquanto senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto. Onde haviam ficado aquelas promessas de seis anos antes? Depois de tudo que havíamos passado, eu ainda esperava ser tudo o que ela tivesse.

Flavia havia entrado no quarto e eu se quer havia me dado conta. Percebi sua presença apenas quando a morena havia se acomodado na cama novamente. Seu indicador acompanhou um dos fios cacheados de meu cabelo, mas me mantive imóvel, encarando a parede do quarto. Aquele lugar que eu costumava chamar de casa, agora parecia extremamente sufocante, eu me sentia aprisionada ali.

- Gostaria de poder fazer algo...- Flavia confessou, mas não a encarei.

- Ninguém pode...- Depois de ter enxugado as lágrimas, não queria que ela me visse daquela forma, tentei parecer o mais convincente possível.

A senti se aproximar de mim e apesar de ter ficado tensa, continuei abraçada ao travesseiro e quieta em meu canto. Seus lábios encostaram em meu ombro descoberto pela regata que eu usava e senti seu beijo terno, porém breve. Respirei fundo e como se adivinhasse que eu fosse falar, Flavinha se deteve a dizer antes de mim.

- Não se preocupe. Eu sei que eu não posso fazer nada para mudar o que está sentindo. Eu só queria dizer que se a Marina realmente escolher a Clara, ela é uma boba. Eu sei que você sempre esteve lá para ela.


Nenhum comentário:

Postar um comentário