quarta-feira, 2 de julho de 2014

The Way You Look Tonight (12º Capítulo - Fanfic)


Notas: Preparadas para os capítulos finais?! Espero que gostem! beijinhos



Capítulo 12: I Told You


“And I told you to be patient
And I told you to be fine
And I told you to be balanced
And I told you to be kind”
(Birdy, Skinny Love)

Clara’s POV:

Uma. Duas. Três horas. Faziam três horas que Cadu havia sido levado para a sala de cirurgia e nenhum dos médicos haviam surgido para trazer notícias. Minha irmã havia voltado para casa, e agora só restava eu Ivan. Não por falta de suporte, Marina me ligara inúmeras vezes perguntando se eu não a queria comigo. E óbvio que eu queria, negar seu abraço, suas palavras de consolo, vinha sendo um dos atos mais difíceis do dia, porém, eu acreditava que aquele era um momento meu com Ivan, e somente nosso. Eu estava sentada no sofá branco da sala de espera, enquanto Ivan, deitado em meu colo, tinha pegado no sono. O que eu agradecia fielmente por ter acontecido. Respirei fundo, me lembrando do diálogo que tivera com Cadu minutos antes dele ter sido levado para a sala de cirurgia.

- Posso entrar? – Indaguei antes de entrar na sala.

- Clara...- Ele suspirou, falando pausadamente.

- Se você não quiser, tudo bem, eu irei entender...- Fiz questão de mostrar que eu iria compreender.

- Eu quero, por favor, se aproxime...

Dei alguns passos na direção de Cadu, parando bem ao lado da cama onde ele se encontrava. Era tão difícil encará-lo naquele quarto de hospital cheio de equipamentos, por um instante pensei o quanto meu filho era mais forte que eu, uma vez que Ivan havia entrado antes e permanecido ao lado de seu pai. Talvez sua inocência fosse a maior dádiva naquele instante.

- A que pontos chegamos...- Pousei minha mão sob a dele, e isso pareceu surpreende-lo. Cadu levantou os olhos e me encarou.

- Eu quero pedir para que cuide do Ivan! – Cadu foi direto, embora tivesse uma voz firme, eu sabia pelos olhos vermelhos e inchados que ele havia chorado.

- Por favor, não fale assim...

- Eu preciso ter a certeza, você precisa me prometer que será a mãe maravilhosa que esse menino merece! – Cadu insistiu.

- É claro que eu prometo...- Meus olhos se encheram de lágrimas e senti as gotículas úmidas e quentes escorrerem por meu rosto. – Você não precisaria nem pedir, Cadu. Mas você vai ficar bem, vai ter muito que ensinar para o nosso filho...muito! – Insisti, tentando manter a esperança dentro dele.

- Não crie esperanças, se eu voltar vivo, é lucro...

- Não fale assim! – As lágrimas se tornaram ainda mais presentes em meu rosto.

Cadu sorriu de canto.

- Ele é um menino maravilhoso, Clara, mil vezes melhor que o pai dele. Ivan tem um coração de ouro...

- Eu sei...mas diferente do que você disse, ele tem muito a ver sim com o pai dele...quando eu o conheci.

Cadu respirou fundo e desviou os olhos, encarando a janela. Ficamos em silencio por alguns instantes, um clima estranho e chato. Era lamentável que a conversa mais decente que tivemos em meses era em um quarto de hospital. Acreditei que aquela era a deixa para eu sair do quarto, talvez até o estivesse incomodando. Afastei minha mão da dele.

- Eu...eu vou indo! – Quebrei o silencio. – Fique com Deus, Cadu...eu e Ivan estaremos logo de volta para visita-lo e levá-lo para sua casa.  Cadu nada disse, por isso dei um, dois, três passos me afastando. Mas fui surpreendida.

- Clara...- Ele falou quando eu estava chegando quase perto da porta.

- Oi? – Perguntei, e só depois percebi o quão ridícula soei indagando daquela forma.

- Vem aqui...se aproxima, por favor...

Andei novamente até onde ele estava.

- Você quer me pedir mais alguma coisa? – Perguntei e Cadu concordou com a cabeça. – O que você quiser...

- Desculpas. Eu quero te pedir desculpas. – Percebi o quão difícil estava sendo para ele assumir aquilo. Desta vez foi Cadu que colocou a mão gelada, possivelmente pelo nervoso, em cima da minha que estava apoiada na cama. – Nosso relacionamento não era para terminar assim, na verdade, nunca acreditei que fosse terminar...e talvez por isso  que tenha acontecido todas aquelas minhas reações. – Ele se apressou a dizer, antes que eu o pudesse interromper. -...não que sejam justificáveis, eu achei que haveria algum jeito de trazê-la de volta...mas quanto mais eu tentava me aproximar, mais você se afastava. Eu fui injusto, fui injusto quando bati no rosto de Marina, fui injusto quando te insultei, fui injusto quando fiz Ivan passar por tudo o que ele esta passando. Possivelmente eu não venha a ter tempo de me perdoar, provavelmente morrerei com essa culpa...

- Não diga essa palavra, por favor! – Fiquei ainda mais nervosa, mais ansiosa para que aquele pesadelo todo acabasse. Mais lágrimas escorreram por meu rosto.

- Me deixe terminar, por favor. Talvez eu não tenha a chance de me perdoar...mas eu espero que um dia você e o Ivan possam, eu espero que um dia, mesmo que eu esteja longe, vocês me perdoem. Vocês serão para sempre o meu tesouro, o meu amor maior...e eu torço para a sua felicidade, Clara, quero que escute...porque hoje, aqui, eu digo isso com tudo o que resta do meu coração: eu quero que você seja feliz, com a Marina ou qualquer outra pessoa especial que encontre, mas por favor seja feliz para iluminar o coração do nosso filho com alegria. Não o deixe conhecer a obscuridade, como ele conheceu comigo.  Ele não merece isso.

- Cadu...não faça disso uma despedida.

- Se uma despedida ou um até logo, eu quero que você tenha certeza que minhas palavras são sinceras e que eu estou verdadeiramente arrependido, mesmo que seja tarde...

- Não é, não é! – Prometi a ele.

Aquelas haviam sido praticamente as minhas últimas palavras a Cadu antes de o levarem, e lá estava eu, angustiada, pensando se havia dito tudo o que eu queria, pensando em como ele estaria agora. Rezei mentalmente para que todos os anjos o acompanhassem, mas mesmo assim, meu peito estava cheio de dor, de tristeza. Ivan acordou sem que eu tivesse percebido. Quando me dei conta, os olhos azuis esverdeados me encaravam.

- Mãe? Você esta chorando?

Limpei rapidamente as lágrimas.

- Não querido...não...

- Esta sim...- Ele afirmou triste.

- Desculpa...é que a mamãe é boba às vezes, tem uns medos meio...

Ivan se levantou, sentando-se ao meu lado.

- Eu também tenho medo, mãe. Você não é a única!

O abracei forte e enchi seu rosto de beijos.

- Mãe...eu já volto...vou ir no banheiro...tudo bem? – Ivan indagou depois de alguns instantes e concordei com a cabeça. O vi se afastar e a tristeza pareceu me atingir ainda mais. Aquelas horas sem notícias vinham sendo torturantes.


Marina’s POV:

A noite havia chegado e apesar da minha insistência, Clara preferiu que eu não fosse. Quando foi por volta de nove horas da noite, escutei meu celular tocar e corri, achando que fosse alguma notícia de Cadu. Mesmo o número sendo desconhecido, o atendi.

- Alô?

- Marina? – Escutei a voz infantil do outro lado da linha, que imediatamente reconheci como sendo a do Ivan.

- Ivan? Está tudo bem? Sua mãe tá bem? Seu...pai?

Houve um suspiro do outro lado da linha e meu coração ficou acelerado.

- Meu pai...esta tendo o coração concertado. Mas...eu acho que quem precisa de você é minha mãe, Marina...ela...- Ivan pareceu fungar do outro lado da linha. – Ela estava chorando...e eu não sei como ajudá-la! – Disse o garoto com toda a sinceridade e simplicidade que existia dentro de si.

- Eu estou...- Me levantei no mesmo instante pronta para vestir os sapatos, mas minha voz recuou. - ...tudo bem se eu for? – Quis ter a certeza, dias antes Ivan não estava reagindo bem a minha presença perto de sua mãe.

- Se...se for para bem dela, sim! – Ele confessou.

Desligamos o telefone logo depois eu já estava a caminho do hospital. O caminho até Clara nunca pareceu tão longo, tão distante. Eu arriscava receber um não de Clara em minha cara, arriscava que ela me recusasse, ou então sua família. Mas eu não poderia deixá-la sozinha, não em momentos como este.


Clara’s POV:

- Filho, você não quer ir para casa? – Indaguei para Ivan, vendo que ele estava começando a ficar tão inquieto quanto eu, se remexendo na cadeira.

- Não, mamãe. Eu sou grande já, poxa, eu quero ficar aqui com você! – Meu filhote insistiu.

- Mas está ficando tarde...é hora de dormir!

- Mãe! – Ivan exclamou, me encarando como se não acreditasse no que eu havia dito. – Você acha que eu vou conseguir dormir enquanto estão mexendo no coração do meu pai?

Ele tinha um ponto. Tinha razão, eu nunca conseguiria dormir se meu pai estivesse correndo o mesmo risco. Eu havia ficado com meu pai até os últimos instantes, apesar de ter sido um dos momentos mais sofridos da minha vida, não teria feito diferente. E, embora, Ivan fosse só uma criança, não podia negar a ele o direito de querer ficar próximo de seu pai. Quando olhei na direção da porta que levava à sala de espera pela milionésima vez, senti meu coração disparar. Não era a Dra. Silvia, e sim Marina que estava ali. Ivan sorriu de canto e me encarou, como se autorizasse que eu fosse ao seu encontro.

- Marina! – Exclamei, abraçando-a até estar próxima o suficiente. – Como...?

- Um certo baixinho disse que você estava precisando de ajuda...- Seus olhos foram na direção de Ivan e acabei sorrindo, quando nos soltamos do nosso breve abraço. Eu e Marina caminhamos até a cafeteria do hospital, enquanto Ivan prometeu que ficaria ali com Leninha que havia voltado com uma mochila com coisas para Cadu.

- Como você está? – Marina indagou à medida que diminuíamos o espaço até a cafeteria que espalhava seu aroma de café por todo o corredor. Senti levemente os dedos de Marina esbarrarem nos meus e tinha quase a certeza de que havia sido um ato consciente.

- Eu não sei...ele está em cirurgia...mas até agora nada...Felipe disse que a Dra. Silvia voltaria a qualquer instante, mas até agora...

- Calma! – Desta vez Marina segurou minha mão. – Sei que é muito para te pedir agora, mas tenta ter calma...- Sua voz era sussurrada e logo soltou minha mão. Nos sentamos em  uma das mesas livres e no canto.

- Eu só...não quero que Ivan passe pelo que eu passei. – Acabei confessando quando estávamos sentadas uma de frente para a outra.

- O que quer dizer?

- Quando... quando meu pai morreu...- Me escutei dizer, eu nunca havia falado sobre isso com ninguém, mas Marina parecia ser exatamente a pessoa que merecia escutar minhas confissões, meus medos e arrependimentos mais íntimos. -...na igreja, quando minha irmã estava para se casar,...eu o vi morrer diante dos meus olhos. – percebi meus olhos se encherem de lágrimas, aquelas lembranças eram tão vívidas em minha mente. -...e então eu percebi o quanto de tempo havia desperdiçado, o quanto ficara longe, quando poderia estar perto. De certa forma, eu evitava meu pai...o evitava porque acreditava que ele era o responsável por colocar bebida dentro de casa e eu...- Fiz uma pausa, encontrando as palavras que se confundiam em minha mente. -...sabia, já naquela época, ...ou pelo menos reconhecia, que meu irmão tinha algum problema com bebida. Desde muito novo Felipe pegava escondido doses de uísque do meu pai, isso sem contar cervejas, vinhos, pingas...qualquer coisa...- Dei de ombros. -...e na minha cabeça infantil, de garota, a culpa era do meu pai, que colocava dentro de casa, que deixava a disposição. – Suspirei. -...Só depois de mais velha, quando percebi que mesmo com a morte, ele continuava a beber,...que seu vício tinha até piorado, que a culpa não era exatamente dele. Eu havia criado um vilão para meu pai, porque era mais fácil que reconhecer que o problema era do Felipe.
Marina acariciou minha mão em cima da mesa, apertando-a levemente.

- Eu queria ter palavras para...- Mas a interrompi.

- E com a morte dele...eu percebi que não tínhamos tido tempo suficiente...que eu não o havia aproveitado...

- Nós nunca achamos que o tempo é suficiente, Clarinha. – Entendi que aquele brilho nos olhos de Marina era referente à lembrança da perda de sua mãe.

- O que me deixa um pouco mais consolada, é que Ivan vê Cadu como seu herói. Que ele aproveita cada minuto que tem com seu pai...- Respirei fundo. Marina desviou os olhos ao redor, e ao perceber que a cafeteria estava relativamente vazia, segurou minha mão e levou até próxima de seus lábios, depositando um beijo carinhoso nas costas das minhas mãos. A marca de seus lábios vermelhos ficou levemente impressa em minha mão e sorri ao encarar aquela marquinha ali.

- Vai dar tudo certo, Clarinha, vamos ter fé de que tudo dará certo!

- Você tem razão...- Tentei acreditar.

Voltamos para a sala de espera alguns minutos depois, eu não queria deixar Ivan por muito tempo, embora ele insistisse que era crescido e poderia ficar ali com sua tia. Quando nos aproximamos do sofá onde Helena e Ivan esperavam, minha irmã pareceu medir Marina de cima a baixo, como se indagasse mentalmente o que ela ali fazia. Mas procurei ignorar, assim como Marina havia visto. Sentei-me ao lado de Ivan, que encostou a cabeça em meu ombro e Marina sentou-se ao meu lado.

- Clara Fernandes. – Uma mulher no corredor chamou meu nome, ao seu lado estava Felipe, que abaixava a máscara do centro cirúrgico do rosto. Eles fizeram sinal para que eu fosse com eles, e apesar de Marina, Ivan e Helena terem se levantado junto comigo, pedi que eles ficassem.

Segui meu irmão e a médica que nos acompanhava por aquele corredor branco interminável. Quanto mais eu caminhava, mais sentia como se ele estivesse se estreitando, me deixando sem ar, tonta. Aquele silencio matava mais do que qualquer notícia que eles poderiam dar. Ou pelo menos eu acreditava nisso até entrarmos em uma sala que me pareceu um consultório normal de um médico de hospital. Lá dentro vi que a Dra. Silvia já estava sentada. Seus olhos pareciam levemente avermelhados, o que tudo me indicou que não viria uma notícia boa.

- Por favor, não omitam nada...- Pedi, ignorando o convite da moça para que eu me acomodasse em uma das cadeiras.


- Sente-se Clara, é melhor! – Alertou Felipe. Acabei me acomodando, uma vez que nenhum dos três parecia querer falar se eu não estivesse sentada.

- Está é a Doutora Suzana Mendes, a cirurgiã que cuidou da operação do Cadu...- A Dra. Silvia a apresentou. – Eu quero que você saiba, Clara, que eu não escolheria, se não, a melhor cirurgiã para cuidar de Cadu. Eu entregaria minha vida nas mãos da Doutora Suzana, se fosse preciso...

- Por favor, digam...- Pedi mais uma vez, não aguentando aquela enrolação.

- Senhora Clara, eu quero que saiba que não é nunca uma notícia fácil de se dar. – A médica dos cabelos castanhos presos em um coque, possivelmente por conta da operação, da touca que tivera que usar por cima deles, me encarou enquanto falava. -...ainda mais quando dois de meus colegas tinham relações diretas com o paciente...- Ela indicou para Felipe e a Dra. Silvia.

- O que aconteceu com Cadu? – Senti as lágrimas explodirem em meus olhos, rolarem imediatamente por meu rosto, banhando-o. Minhas mãos geladas, pareceram ficar ainda mais.

- Clara, escute a doutora...- Felipe pediu.

- Ele está morto, não está? – Indaguei a médica-cirurgiã com o tom de voz alterado. – Você não conseguiu salvá-lo não é? – Desde o instante em que chegamos naquele hospital um sentimento ruim me acompanhava. Algo aconteceria, eu podia sentir.

- Eu...eu sinto muito! – Foi tudo o que a médica conseguiu falar.

- Eu sabia...sabia...- O choro agora não era escondido, entre soluços, recebi o abraço de meu irmão.

- Nos fizemos tudo o que foi possível, Carlos Eduardo lutou até o último instante...ele era um lutador...- Aquelas palavras da doutora Suzana me fizeram chorar ainda mais. Eu me lembrava como Cadu havia sido petulante, insistente, ao querer tentar uma reconciliação, mas também me lembrava de tantas outras vezes que ele fora persistente. Em detalhes, quando consegui me acalmar, os três médicos me explicaram o que havia acontecido. Confesso que pouco escutei. Tudo o que conseguia pensar era em como meu filho ficaria arrasado e o que aconteceria com aquela esperança tão bonita que ele costumava ter nas coisas.

Quando retornei a sala de espera, acompanhada por Felipe, nada precisei dizer. Talvez minha cara de acabada já respondesse por si só. Fui recebida primeiro pelo abraço do meu filhote, um abraço tão confortante e ao mesmo tempo tão doloroso. Em seguida Marina e Helena se levantaram para me abraçar. Ao perceber que Marina ia, Helena recuou, respeitando-a ao menos naquele momento. A castanha pousou uma das mãos na cabeça de Ivan, como se quisesse consolá-lo também e com o outro braço me abraçou. Eu sentia meu coração despedaçado, tomado por um vazio que eu não sentia que se quer tão cedo seria ocupado, uma vez que Cadu parecia ter levado com ele parte da minha história, nossos momentos juntos, os bons e os ruins. Fechei meus olhos e quis não abri-los tão cedo, encarar a verdade e Ivan seria extremamente difícil, mas eu tinha, em meus braços, dois motivos pelo qual eu deveria reabri-los. E assim o fiz.



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