terça-feira, 8 de julho de 2014

Universo Paralelo (Conto)

Créditos da imagem: Sabine Rich


Universo Paralelo


A neve branca chegara junto com o inverno entre a última semana de novembro e a primeira de dezembro. Se despedir do outono não era fácil, mas era necessário.  Viver em uma cidadezinha no interior da Escócia não tinha grandes emoções e mudanças. Na verdade, a mudança climática era uma das únicas. Mas eu gostava da forma pacata como meus dias eram conduzidos, de certa forma era reconfortante ter uma rotina e saber que meus dias eram tão firmes e certos como o céu nublado do Reino Unido.  A floricultura que eu herdara da minha família costumava perder movimento nessa época do ano. Não que fosse culpa dos clientes, na verdade as flores de inverno nunca são tão belas quanto as da primavera, e reconhecendo que estávamos saindo do outono, eu não esperava grandes milagres.

        O pouco movimento permitia que eu pudesse ler um ou dois livros na semana, o que para mim era um alívio, mesmo que minha vida, de uma forma geral, ficasse mais apertada naquela época do ano pelo pouco dinheiro que entrava. Quando o sino indicou que a porta da floricultura havia se aberto, desviei meus olhos do amarelado livro de Jane Austen.

 - Com licença...- Sorriu uma jovem de cabelos longos e pretos quando adentrou a loja. Seu rosto estava vermelho, possivelmente havia adquirido queimaduras do frio e pelo sotaque eu poderia afirmar que não era da cidade.

Sorri, fechando o livro e apoiando-o no balcão para ir de encontro a jovem.

- Fique a vontade, seja bem vinda!

Os olhos da moça pareceram se desviar para o livro que eu havia deixado há pouco e então ela me encarou.

- “A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.” – Citou ela uma passagem que imediatamente eu reconhecera do livro. Eu não era muito fã de romances, mas Jane Austen havia de fato mudado minha visão sobre eles. Acabara virando um de meus livros favoritos, que possivelmente eu já havia lido mais do que minha conta bancária.  – Ah...me desculpe! – A morena esticou a mão em minha direção. – Não quis me intrometer...é que esse é o meu...

- Livro favorito! – Completei automaticamente presa por um instante em seus olhos que pareceram por um instante serem tão calorosos, capaz de derreter toda a neve e o frio que haviam tomado a Europa nos últimos dias.

- Sim....isso! – Ela sorriu de canto.

- Tudo bem....em que posso ajudá-la? – Perguntei, pegando o catálogo de flores.

- Eu...- Ela olhou na direção da porta, e então voltou a me encarar. -...eu posso me sentar um pouco! – A moça apontou na direção do banco de madeira que ficava atrás do balcão, onde eu estava sentada antes dela chegar.

Confusa, olhei na direção dele e depois para ela.

- Você está...? – Mas não pude terminar a indagação.

- Por favor? – Me pediu, só então percebi que o calor, a felicidade que parecia existir em seus olhos, era uma máscara, que tudo havia, repentinamente, ficado triste e cinzento.

- Tudo bem...

Fiquei sem saber o que dizer, como agir. Eu não costumava ser boa com palavras. Vivia demais no meu universo paralelo.

- Obrigada! – A moça se direcionou até o banquinho de madeira e se acomodou nele, com a bolsa no colo. Intrigada, fiquei encarando-a, e talvez isso a tenha incomodado.

- Me desculpe...aqui só me pareceu um lugar, para que minha mente, corpo e alma pudessem descansar. Seus olhos percorreram toda a loja que era cercada por todos os lados por plantas e flores.  -...eu gosto de flores...elas me acalmam...a forma como são graciosas, delicadas...belas...- Seus olhos se fixaram nos meus e foi como se eu não tivesse controle dos meus próprios atos, pois mesmo brigando para quebrar aquele contato visual, para desviar meus olhos dos dela, eu não fui capaz.

- Por que está aqui? De onde você é?!

Percebi que a moça havia engolido o choro, que tentava controlá-lo dentro do peito.

- Eu...vim de longe...Florida, Estados Unidos. – Houve uma pausa e a morena suspirou. Desceu do banco e se aproximou. Ficou tão próxima que senti um incomodo interior e automaticamente dei um passo para trás.

- E o que faz aqui?

Seus olhos se desviaram para o redondo relógio que pendia em uma das paredes.

- Nesse exato momento eu estaria entrando na igreja de véu e grinalda, cumprimentando um a um dos meus parentes que a essa hora devem estar se perguntando se o atraso da  noiva é normal. Sem contar meu noivo, que possivelmente, conhecendo-o como eu conheço, deve estar iniciando um surto em pleno altar...acreditando que foi abandonado...- Conforme ela ia falando, mais incógnita eu ia ficando, mais sem reação. Talvez eu estivesse sonhando, talvez fosse apenas uma doida que havia adentrado a minha floricultura. -...e a verdade, é que ele foi. Porque eu não poderia entrar naquela igreja sem saber...- Seus olhos mais uma vez percorreram toda a floricultura até encontrarem os meus novamente. -...que esse lugar era real, que você era real...- Franzi a testa prestes a mandá-la embora. – Eu sonho com a Escócia, com essa cidade, esse lugar...sonho com essas flores, com você e a tatuagem de rosas que tem no lado esquerdo das costas desde que eu me conheço por gente. – Dei mais alguns passos para trás, desesperada. Como uma desconhecida podia saber sobre minha floricultura? Sobre minha tatuagem? Sobre a minha história?

- Por favor, vá embora...- Pedi.

- Não! – Ela exclamou, segurando minha mão. – Me escute, eu que peço por favor. Me diga, quanto tempo existe essa floricultura? Muitos...não é? É uma herança de família...nós...nós já vivemos aqui um dia...

- Eu não creio que a senhorita esteja passando bem, e acho que deveria se retirar e procurar ajuda médica...- Fui me encaminhando para a porta, mas novamente ela me segurou. Desta vez me conduzindo até seu corpo, sem que eu tivesse escolha. Naquele instante pareceu muito mais forte do que a mulher esguia que adentrara a floricultura e que eu imaginava que ela fosse.

- É tão difícil acreditar? – Ela indagou, mas não me deu chance de resposta, na verdade, beijou meus lábios impulsivamente. Senti a maciez de sua boca explodir na minha, senti meu corpo se render e meus pés se despedirem do chão.

Repentinamente um sino me puxou novamente para o chão, impedindo aquele voo.

- Ahnn?! – Levantei assustada a cabeça do balcão quando escutei o sino ecoar pela floricultura. Atrapalhada tentei me localizar no tempo/espaço, mas meu olhar rapidamente congelou na direção da porta. Era ela, a morena que acabara de me beijar. Ajeitei meu cabelo ao me dar conta do quão desgrenhadas as madeixas loiras poderiam estar. Paralisada, e ainda sentada no banquinho, meus olhos não conseguiram desviar dela e nosso olhar se encontrou. Soube que no fundo dos seus olhos estava o meu “universo paralelo”, ela era meu universo paralelo.

- Com licença...- Sorriu a jovem de cabelos longos e pretos quando adentrou a loja. Seu rosto estava vermelho, possivelmente havia adquirido queimaduras do frio e pelo sotaque eu poderia afirmar que não era da cidade.

...ou, talvez em algum momento no tempo, ela havia sido da cidade,

e do meu coração.



Por Lis Selwyn
08/07/2014

2 comentários:

  1. NOSSA! QUE PERFEIÇÃO!!!! <3

    Omo querida, OMG, esse conto é maravilhoso. Me enganou direitinho, adorei adorei adorei! Não estava nada à espera desse final mas acho que encaixou bem nesse enredo de Universo Paralelo. A forma como descreveu a estação, a floricultura e a cena delas se conhecendo/reconhecendo ... e depois vermos que a cena do presente encontro não havia realmente acontecido, mas toda essa sensação de Déjà vu depois comprovada com a entrada "real" (mas o que é real?) no fim da moça da Florida, nossa adorei!! Sem palavras. Definitivamente um dos meus favoritos. Parabéns parabéns parabéns!!

    Bjinhosss

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    1. Omooo! você por aqui, que surpresaaaaa! *_* obaaa fico feliz de ter conseguido enganar...não que eu goste de enganar as pessoas O.o kkkkkk mas fiquei feliz do texto ter convencido a esse ponto. Fico muito feliz que tenha lido e curtido...como você sabe, eu amo escrever contos né *_* beijinhos e obrigada por passar por aqui

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