domingo, 7 de setembro de 2014

E quem um dia irá dizer...(Conto)




E quem um dia irá dizer...

Não, este não é mais um apanhado de frases e versos de Renato Russo, tampouco é a história de Eduardo e Mônica. Antes fosse, pois assim, você, leitor, teria a certeza de que a história aqui contada seria de amor, cujas dificuldades venceram todas as barreiras. Mas não. Detesto decepcioná-los, o que vou lhes contar é uma história comum, sobre um casal comum, mas que acreditavam fielmente de que seu amor não era comum, era único. Não irei também enganá-los, não esperem por um final épico, brigas de espadas e cavalos brancos, da mesma forma que esta história começa, sem motivo, sem razão, ela termina.

Diferente de tantos contos por aí, não começarei com "Era uma vez...", pelo simples fato da história entre estes dois não ter se iniciado repentinamente e sim ter acontecido gradualmente, como um filme em câmera lenta.

Treze anos era uma idade...- Não, não era uma idade exatamente especial, mas foi quando se conheceram. Mudar de sala tinha tido sua vantagem, ao menos era esse seu pensamento. Mas não se engane, a garota não estava feliz por na sua sala existir o garoto branquelo e gordinho dos olhos azuis por trás de um óculos, este, naquela época, veio a ser seu melhor amigo. A verdadeira razão pela sua felicidade naquela sala tinha nome, sobrenome e um corpo bastante atraente, ao menos para os pensamentos de uma garota de treze anos.  Sua paixão por tal garoto durou pelo menos aquele ano inteiro e ela contava com a ajuda de seu melhor amigo para que a paixão platônica se tornasse real, enquanto que ele - o melhor amigo - imaginava como seria ter todo a atenção e paixão daquela menina para ele, como tinha aquele rapaz sortudo na sala.

Dois anos se passaram e o amor platônico da garota pareceu ficar no passado, ela conheceu outros garotos, viveu outras coisas. Sua amizade, com aquele que era seu melhor amigo deu uma breve distanciada, ao menos, até o final daquele ano quando a coragem e um ato súbito de atitude lhe tomou.

- Liam, você...quer ir comigo? - Ela perguntou certa vez no intervalo entre uma aula e outra. O garoto já não era nem mais tão baixinho, nem tão gordinho, na verdade havia crescido bastante nos últimos dois anos, mas ainda sim continuava branquelo.

- No baile da formatura da viagem? - Ele indagou surpreso se referindo a formatura de ambos no ensino fundamental, a garota pode ver a maçã do rosto de Liam ficar vermelha, aquilo era um bom sinal, só poderia ser.

Ela concordou com a cabeça e muitas expectativas se formaram. Liam passou a crer que aquela era sua grande chance, que o destino havia unido-os novamente, mas, ainda não era a hora. Uma distração, novamente eles se distanciaram e ambos chegaram a acreditar que "não era para ser". 

Entre esses encontros e desencontros mais um ano e meio se passou, muita história rolou e muito filme rodou. Eles se encontraram por acaso em uma festa, mas não por acaso ficaram juntos. Aquela era a hora, era o momento deles, não haveria dado certo quatro anos antes quando se conheceram e também não haveria dado certo um ano e meio antes quando foram ao baile juntos, mas naquela hora deu certo. Naquela hora as almas de ambos pareceram se reconhecer e eles formaram um só.

Mas o destino ainda estava prestes a pregar mais uma peça. Por um mês eles permaneceram juntos, não como namorados oficialmente, mas internamente eles já se aceitavam como tal. Uma viagem deixava a relação entre os dois incerta, um intercâmbio de cinco meses.

- Eu vou te esperar! - Liam afirmou antes que a garota partisse, e ela também esperou.

Quando voltou, o namoro decolou. Todo o tempo que não estiveram juntos parecia tempo perdido, uma vez que se conheciam desde sempre. Se tornaram mais próximos do que nunca, melhores amigos, confidentes, namorados. Ele costuma dizer que seu único defeito era não ter assistido "Star Wars", enquanto ela...bom ela não encontrava nenhum defeito, nada que pudesse reclamar dele. Acreditou que esse seria o homem da sua vida, que viajariam o mundo juntos, passariam noite após noite fazendo maratona de "Senhor dos Anéis", se casariam e dia após dia ela teria que reclamar o fato de todo café da manhã dele ser baseado em bolacha "Oreo". Fizeram planos, viajaram mais uma vez pela escola, desta vez estiveram juntos não só no baile de formatura, mas em toda a viagem. Tudo estava certo, concreto. Porém como eu disse, esta não é mais uma história de final feliz.

Do dia para noite tudo desabou. Um desabafo foi o suficiente para que ela escutasse de Liam as palavras mais duras. Nunca pensou que seria tão difícil, e o pior de tudo, não haviam explicações. Como poderia acabar assim?


...

Aquele mesmo som da campainha e o mesmo aguardo com frio na barriga. Cá estava eu, lá estava ele. Poderia ser como qualquer outro dia na semana dos últimos meses desde que estávamos juntos, mas não era. Desta vez não iríamos assistir filmes, encher a cara de óreo ou passar a madrugada discutindo sobre o que era melhor, Senhor dos Anéis ou Star Wars. Eu sabia que não seria nem de perto um dia acolhedor e comum, como eram todos nos nossos dias, e isso, era o que mais doía. Encarar a realidade, abandonar os momentos e deixar que eles fossem unica e exclusivamente lembranças.

Então é isso mesmo, meu amor?
Nosso amor não voou,
Nosso amor acabou?

Por mais que eu tentasse buscar explicações, não havia nenhuma que justificasse aquele momento. Como explicar algo que acaba do nada? Assim, como a água se evapora. Abri a porta da casa e ele entrou, com seu jeito pacato, nos cumprimentamos com um breve aceno de cabeça e para sala seguimos. Ele devia ser uns dois palmos maior do que eu, mas naquele instante, encolhido, sem saber o que fazer, pareceu ser do tamanho de uma formiga. Estranho não nos cumprimentar com abraços, beijos ou qualquer forma mais carinhosa. Mas também estranho estarmos ali para colocar o tão temido ponto final.Havíamos combinado que o melhor era terminar com uma conversa pessoalmente, nem eu, nem ele merecíamos um término por telefone. Estranho voltar a tal "friendzone", quando já havíamos ultrapassado-a. Estranho não dizer que ele é o amor da minha vida.

Nos encaramos mais uma vez. Seus olhos azuis pareciam mais nebulosos do que de costume e as olheiras ao redor de seus olhos indicavam que suas noites possivelmente estariam sendo tão difíceis quanto as minhas.Permanecemos por minutos, horas, talvez, com os rostos próximos, os olhos fixados. Não havia o que dizer, senão, que aquele não era o fim.

Ou talvez fosse. 

Por Lis Selwyn 
07/09/2014

3 comentários:

  1. Aprecio demais a sua coragem em ousar contar também o triste, o incerto, ou/e o talvez sim, talvez não. Porque a vida tem destas coisas tb, as coisas não são lineares ou a preto e branco como nos Contos de Fada, e por isso, achei muito a propósito vc dizer que esse conto não começaria com o "Era uma vez".

    É um texto curto que entendo que não tem por objetivo explorar os porquês do não dar certo (aquele instinto masoquista que normalmente temos, sabe? xD) e sim colocar em cima da mesa que há coisas que sucedem de determinada forma porque sim. E afinal, quem somos nós para achar que sabemos tudo sempre e que podemos consertar tudo? (e será que precisa de conserto realmente?)

    Suas palavras me trazem paz e conclusão. Entre outras coisas. Vou parar de divagar já! ahahaha

    Continue sempre!
    ^_ ^

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    1. Olá Tâninha, eu tentei responder aqui antes, mas o blogger tá de palhaçada. Enfim, eu acho que fins fazem parte da vida, e merecem ser escritos da mesma forma que os começos e os meios. Tudo faz parte da vida, e por isso eu escrevo. Fico feliz que as palavras tragam paz, que você divague...porque já te disse isso, você acaba compreendendo o texto muitas vezes até melhor do que eu rsrs. Obrigada por acompanhar, apoiar, sempre ler! beijinhos e é ótimo te ver sempre por aqui :)

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