quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Palavras Ditas, Sentimentos Não Ditos (Conto)


Palavras Ditas, Sentimentos Não Ditos (Conto)

Eu sempre fui de acreditar pouco e duvidar muito. Quem nunca se perguntou se aquilo era ou não verdade? Se as outras histórias eram de  mentira ou se a sua é que era? Desde pequena me lembro de duvidar da Cinderella, Bella, Ariel, Aurora e tantas outras princesas que preencheram minha infância. Mais tarde, cresci e a duvida se expandiu as equações de matemática, o foragido X da questão, os professores, meus pais, amores...mas a dúvida sempre se retornava para o mesmo ponto: as histórias.

Não acredito que irá crer em tudo o que eu disser aqui, tampouco imagino que eu acreditaria se não tivesse acontecido comigo. Mas vamos ao que interessa, ao meu “Era uma vez...”.

Certa manhã acordei afobada para ir à aula. Era uma manhã típica, mas a noite anterior havia sido atípica, para não dizer insuportável. Sabe aqueles dias em que você não está para papo? Aqueles dias em que tudo irrita, o azul no céu, o canto dos passarinhos, o cachorro respirando e até mesmo os cachinhos loiros da sua namorada que você sempre achou um encanto? Bom, assim estava sendo a minha terça-feira, talvez você me ache uma chata, ou talvez eu merecesse a taça de TPM campeã do mês, mas eu garanto que até por volta das seis horas da tarde, até pisar dentro de casa, eu havia conseguido aguentar e disfarçar bem minha irritação. Eu me lembrava claramente da briga com meus pais, meus avós e Lily, a loirinha do cabelo cacheado. As brigas haviam acontecido como em uma avalanche, sem que eu pudesse prever, ou me dar conta do que eu falava. Possivelmente, só agora, no dia seguinte, eu conseguisse perceber o peso de tudo que eu havia dito, eu havia agido na intensidade da emoção, quem nunca havia agido? Mas também, quem nunca havia se arrependido. Possivelmente, vocês resolveram seu arrependimento com desculpas, flores, um passeio no parque, alguns beijos e um pouco de carinho, mas o meu, bem, eu não tive exatamente essa oportunidade.

- Ok, a primeira coisa que eu preciso fazer é ligar para Lily!- A voz ecoou em minha mente assim que eu acordei, assim que me encarei no espelho, mas na verdade, é que eu não havia me escutado, senão em minha mente. Encarei-me novamente, afastei a juba ruiva que caia em meu rosto, revelando meus olhos verdes, mas que pareciam mais apagados do que nunca.  – Alô? Oi? – Indaguei novamente, sem êxito, sem poder escutar minha voz. Segurei minha garganta, como se tentasse obrigá-la a falar. Minha voz havia sumido, como poderia? E não era nenhum tipo de gripe ou falha, ela simplesmente não aparecia.

Rosas de Na Carolina começou a tocar no quarto e eu sabia que aquilo significava meu celular, sabia, mais do que isso, que era Lily ligando. Fui até o aparelho, e embora minha vontade fosse de pegar o aparelho e falar com ela, me desculpar, não pude. O segurei na mão, observando a linda foto que havíamos tirado uma semana atrás no jantar de dois anos de namoro. Era sempre fora linda, eu ao menos sempre achara, mas naquele dia em especial ela estava deslumbrante e desde então aquele havia se tornado o ícone de ligação dela. Apertei o celular e senti um nó se formar em minha garganta, não era a voz, era simplesmente o choro. O choro que eu deveria ter chorado na noite anterior, na semana passada ou há três anos. O choro que vinha segurando desde que me lembrava por gente, por um único objetivo: querer ser forte.

“Eu não dormi noite passada. Sinto muito por termos ido dormir daquele jeito...” – A mensagem de Lily surgiu no visor do meu celular.

“Eu também sinto, mas não posso falar agora.” – Digitei rapidamente no Whatsapp e enviei a mensagem a ela.

Só depois percebi que não havia sido tão feliz nas palavras escolhidas. Eu era esse tipo de pessoa, descuidada, desatenta e impulsiva, mas eu sabia que eu também era apaixonada. Lily havia me feito descobrir que eu poderia ser assim, e ela sabia.

“Desculpa então.” – Ou talvez não soubesse. Eu tinha a certeza de que ela havia ficado brava. Não que eu a culpasse. Sentei na beira da cama, ainda me encarando no espelho. Respirei fundo, pensando em como explicar. Eu não poderia dizer o que aconteceu, quando nem eu sabia o que havia acontecido.

“É verdade...eu...não posso falar...” – Respondi novamente, esperando que ela entendesse meu apelo. Dois minutos se passaram, e eu comecei a acreditar que não teria resposta nenhuma, até que o visor do celular acendeu novamente.

“Como assim? Gripe?” – Lily indagou na mensagem e meu coração se aliviou por um instante.

“Não exatamente, eu acordei... e estava assim, sem voz...” – Respondi.

“ A Ursulla raptou sua voz, Ariel?”  - A loirinha indagou, referindo-se a vilã da Pequena Sereia, diferente de mim ela sempre gostara de conto de fadas e devido o meu cabelo ruivo e desgrenhado, Lily vivia a me chamar de Ariel.

“Engraçadinha...” – Respondi, mas acrescentei um emoticon piscando e mostrando a língua logo em seguida, com medo que ela me entendesse mal novamente. A tecnologia era muito boa, mas criava certas falsas interpretações que era um verdadeiro problema.

“É sério, o que aconteceu?” – Ela insistiu.

“Eu não sei.” – Respondi rapidamente, mas não era só aquilo que eu queria falar, era mais, pela primeira vez em muito tempo eu tinha tanto para dizer, e não podia. – “Eu estou com saudades da sua voz...de você...”

“Eu também!” – Rapidamente ela me respondeu com um emoticon triste e aquilo me fez sorrir. Ela sentia minha falta, ao menos não estava tudo perdido depois do que eu havia dito na noite anterior. - “Podemos nos falar...”– Ela acrescentou antes que eu pudesse responder.

“Mas eu não posso...”

“Eu ligo...você me escuta e responde por aqui.” – Acabei sorrindo, Lily sempre fora a mais sensata, a mais romântica e a mais tranquila. Por vezes durante os dois anos que estivemos juntas cheguei a acreditar que ela era demais para mim, que ela era perfeita demais, na verdade, acho que ainda acredito nisso.

“É uma ótima ideia.” – Mandei um emoticon com os olhos brilhando junto com a resposta.

- Clara...- Escutei ela pronunciar meu nome assim que atendi o telefone. Seu timbre doce e tranquilo me fez pouco a pouco eu me acomodar na cama, lembrar dos nossos dias juntas ali, como se ela estivesse a falar em meu ouvido.

“Você não faz ideia do quanto eu me arrependo por ontem...” – Escrevi, sem querer esperar mais para pedir desculpas.

- Shhhh... – Ela pediu  no telefone. – Eu sei que você não fez por mal.

“Mas eu não deveria misturar as coisas, não devia descontar em você...” – Respondi.

- Está tudo bem...- Lily insistiu.

“Não... não está, eu ando sendo uma...” – Não completei, eu tinha problemas em admitir a responsabilidade dos meus erros, mas naquele momento, por mais que eu hesitasse, eu tentava. Eu queria dizer a ela o quanto amava, queria dizer que ela era a mulher da minha vida e que aceitaria viajar de uma ponta a outra do mundo com ela. Mas no lugar disso, só consegui suspirar, foi tudo o que saiu. E pela primeira vez, não porque eu não quisesse dizer, e sim porque eu não podia, não havia voz.

- Eu também te amo! – Lily disse em sua forma tão sincera e serena, respondendo ao meu suspiro. Ela me conhecia, conhecia melhor do que ninguém. Meus olhos foram tomados por lágrimas. Novamente aquele bolo em minha garganta se formou, mas desta vez não era somente pelas lágrimas.

- Você é minha vida! – Consegui responder pela primeira vez então, e não sei exatamente contar como. Eu sei que antes que eu pudesse pensar, lá estava minha voz, eu já estava me escutando falar, talvez minha voz tivesse voltado, ou talvez então meu coração estivesse falando tão alto que havia se transformado em voz.


Não vou dizer exatamente que sei o motivo da voz ter sumido. Talvez tenha sido “Ursulla”, provavelmente eu precise acreditar mais em histórias, contos, até mesmo os de fada. Mas eu sei exatamente o motivo da voz ter voltado. Só se deve dizer o que vem sinceramente do coração, todo o resto deve ser pensado e refletido se realmente é necessário ser dito. 


Por Lis Selwyn
11/09/2014

2 comentários:

  1. Olá querida amiga =)

    Sua criatividade sempre me surpreende da melhor forma. Você sempre consegue agarrar numa ideia simples e transformá-la em algo polido, cuidado e de enorme significado, e consegue fazê-lo de um jeito interessante e que suscita crescente interesse e reflexão em quem lê.

    Adorei o pequeno enredo e o fato de ter trazido a referência da Pequena Sereia para o contexto do conto. Continuo achando que vc tem um dom com as palavras, porque com o pouco consegue fazer o muito. Me lembro quando disse que é capaz de ver uma coruja (era uma coruja ou outra coisa? xD) e sair escrevendo sobre isso, e é vdd, assino em baixo, vc realmente consegue escolher uma ideia descontextualizada e dar-lhe um sentido mais elaborado.
    Muitos parabéns. Espero que continue conseguindo conciliar as coisas para poder continuar com as atualizações dessas suas loucuras (no melhor sentido possível).

    Citando (pq vc sabe que sou dessas kkk): "Mas eu sei exatamente o motivo da voz ter voltado. Só se deve dizer o que vem sinceramente do coração, todo o resto deve ser pensado e refletido se realmente é necessário ser dito."

    Beijinhos omo <3

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    1. Omoo! aii...você sabe que meus contos em geral sempre tem uma moral, às vezes algo que eu percebo no mundo outras, são coisas que eu mesma preciso prestar mais atenção, me policiar. Essa ideia veio do nada, como a maioria das outras, mas me apeguei a escrevê-la como há muito não fazia em um conto. Fico feliz em saber que gostou....e mais ainda em saber que consegui passar toda a história de uma forma bacana. Enfim, quando quiser um conto, é só falar uma palavra...lembra do barreiras? :P hahaha
      Obrigada por tudo, e pela citação...é minha parte favorita do texto, essa em especial, porque foi a partir dela que o texto surgiu. Enfim, muito obrigada, beijinhos <3

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