domingo, 26 de outubro de 2014

Duas cervejas geladas e um beijo (conto)

image by: tumblr

Duas cervejas geladas e um beijo.

- Qual foi o marco da literatura no século vinte? – Ela indagou, enquanto meus olhos percorreram seu rosto, traços e olhos. Ela era alta, esguia e extremamente elegante. Encarei aqueles olhos esverdeados por um milésimo, que pareceu uma eternidade. Quando percebi que, retribuindo ao meu olhar, ela olhou em minha direção, desviei os olhos, completamente errada com aquela situação. Meu coração pareceu chegar até a boca, e forcei-me a engolir o bolo que se formara na garganta. Passei encarar meu caderno e naquelas linhas vazias permaneci até o final da aula. A professora encerrou, sem delongas, definitivamente ela não era uma mulher de se alongar. Deixou a sala, e pela primeira vez, desde que sua aula começara, eu senti que poderia respirar.

Juntei meu material, guardei tudo na mochila e a coloquei em minhas costas. Não havia sido um bom dia. As aulas na faculdade haviam começado há menos de duas semanas e se tratando de adaptações eu sempre tivera dificuldades. Segui para casa a pé, o caminho fora silencioso, pelo adiantar da hora, e tranquilo. Talvez mais gelado do que eu esperara, mas ao chegar tudo pareceu melhorar. Jantei com meus pais, tomei banho e finalmente me deitei. Quando fechei os olhos, aquelas orbes esverdeadas voltaram a me encarar. Respirei fundo, virando-me de lado. Era apenas minha imaginação, tinha que ser.

Alguns dias se passaram, e o final de semana trouxe a ideia de que um bar seria uma boa pedida. Nada de companhia, eu queria era ir assim, sozinha. Não era nada de especial, um bar nem um pouco formal. Um lugar no balcão era o suficiente.

- Garçom, me vê uma dose daquelas de perder o chão!

Ele riu, e me serviu um pequeno shot que virei em uma única vez. A bebida aqueceu, chegou a queimar minha garganta, mas permaneci sentada, me equilibrando no estreito banco do bar. Depois da terceira dose, com os olhos embaçados, que a vi ao bar adentrar. Era coincidência? Tinha que ser! Ela não estava de social, mas de jeans e camiseta da Arctic Monkeys, em que universo eu poderia imaginar que ela gostava de Arctic Monkeys? Era um sonho, tinha que ser! Ainda sim, fosse ou não sonho, ela estava elegante, sexy e intrigante, como sempre. Passou os olhos pelo local, enquanto segurava a bolsa preta do lado esquerdo do corpo. Sentou-se do outro lado do bar, mas ainda sim nossos olhos se encontraram. Senti um frio na barriga pela incerteza do que aquilo poderia significar.

- Mais uma dose! – Empurrei meu copo na direção do garçom, mas meus olhos continuaram fixos a loira do outro lado do bar, que parecia me encarar da mesma forma. De todos os bares do mundo ela escolheu aquele? Justo aquele boteco velho e sem graça? Larguei o pequeno copo de shot no balcão e peguei duas cervejas long neck. A primeira vez que meus pés encostaram-se ao chão a sensação não foi boa. Por um instante acreditei estar a bordo de um navio, mas alguns segundos foram o suficiente para encontrar novamente meu ponto de equilíbrio.

- Alguém me disse que você está com sede...- Disse ao colocar a cerveja no balcão, na frente da mulher. Eu havia tomado coragem e me aproximado.

Seus olhos me fitaram mais uma vez, tão intensamente quanto aquele dia na sala de aula. Seu olhar era marcante, do tipo que não desvia nem por um instante.

- E alguém me disse que esse não deveria ser um ambiente para uma jovem como você. – Sua frase foi sucinta e sem muita emoção. Embora suas palavras frias, ainda assim fossem capazes de aquecer meu coração.

Normalmente eu teria me retirado, mas a bebida me motivou a continuar ali.

- Essa é uma forma peculiar de agradecer alguém que lhe pagou uma cerveja. – Disse e nossos olhares foram sustentados mais uma vez. Estávamos tão próximas que pude desta vez observar com detalhes o desenho de seus lábios. A vontade de beijá-la pareceu mais forte do que nunca, talvez fosse melhor aquilo ser um sonho, tinha que ser! Achei que ela fosse me devolver a cerveja, ou pior, pegá-la e sair do bar, mas diferentemente do que eu acreditava, ela virou um longo gole da bebida. Talvez uma barreira tivesse sido quebrada ali.

- É, acho que tem razão...- Ela pareceu concordar depois de saborear os resquícios da cerveja que ficara em sua boca. Não pude deixar de pensar o quanto eu gostaria de provar.

- Eu deveria ter trazido mais algumas...

- Embebedar um professor não é uma bela forma de começar o ano letivo... - Nossos olhos cruzaram novamente. Encontrei dessa vez um leve sorriso de canto, o que já era alguma coisa de alguém que parecia nunca sorrir.

- E um beijo? – Eu me vi dizendo, repentinamente, como se meu pensamento tivesse traindo meu juízo. Era um sonho, tiiiiiiiiiinha que ser! - Clamei mentalmente, esperando que o despertador, minha mãe ou o cachorro me acordassem. Nada aconteceu, ela continuou ali, e eu aqui.

- Como? – Percebi que ela havia se levantando, parecia incomodada.

- Eu quis dizer, e mais duas cervejas geladas?


- Eu aceito, duas cervejas e um beijo. – Ela respondeu.

Por Lis Selwyn
26/10/2014

Um comentário:

  1. Adorei o texto, muito bem escrito adorei te conhecer lá no grupo e estou lhe seguindo!
    Bjs
    http://meninadivadamodaoficial.blogspot.com.br/

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