quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Magia do Natal


Magia do Natal

Era manhã de Natal, e por algum motivo eu havia levantado antes das dez da manhã e com uma dor de cabeça horrível. Não me consideraria uma pessoa dorminhoca, mas nas manhãs de Natal, eu estava habituada a ter o sono mais prolongado do ano inteiro, ou pelo menos esta era a tradição até o ano passado. Levantei, sem delongas, e logo escutei a corrida em direção ao meu quarto. Esta tradição eu duvidava que em algum momento da minha existência fosse alterada. Era Bartie, meu fiel companheiro, um vira-lata que em pé conseguia ser maior do que eu o meu um metro e sessenta e três. Minha história com Bartie é linda e tocante, mas, não vem ao caso. Esta é uma história de Natal, ou era isso o que acreditava quando acordei esta manhã.

Tomei banho e assim que cheguei à cozinha, lá estava Bartie novamente, ao meu lado, esperando ansiosamente pela geladeira da manhã de Natal, assim como eu, confesso, também estava. Abri o eletrodoméstico e meus olhos foram em busca do peru, lombo, pernil, presunto...qualquer vestígio de que ontem havia sido véspera de Natal, mas, tudo o que encontrei fora restos da minha marmita da semana anterior. Respirei fundo e fiz cafuné na cabeça peluda de Bartie, que parecia tão desapontado quanto eu. Meus olhos captaram a neve que continuara caindo lá fora, congelando folhas, a grama e até mesmo o motor de meu carro. Estar ali era o que eu desejara, o que eu sempre sonhara, mas por algum motivo, naquela manhã de Natal, minha vida parecia fora de contexto. Nada de parentes que não vemos há mais de meses, nada de tias chatas questionado incansavelmente, ano após ano, “sobre os namoradinhos”, nada da velha e péssima piada “é pavê ou pacumê?”..nada, nada disso. Para a maioria das pessoas soa como maravilha, um sonho, para mim, um ano atrás também soaria, porém, estar sozinha no Natal, longe de toda a família, em um país, um hemisfério diferente, pode deixá-la com o coração incrivelmente vazio,...ainda mais vazio do que minha geladeira.

Escutei meu estômago roncar, uma enorme cratera parecia ter ocupado ele. Encarei Bartie que me olhava assustado e os flashes da noite anterior começaram a vir. Olhei ao redor da minha minúscula cozinha e as garrafas de bebida estavam por toda parte. Não, eu não havia dado uma festa tampouco meu Natal havia sido de “putaria”,eu havia passado ele com aquelas garrafas, e somente elas, e foi então que eu percebi que não poderia ficar ais solitário do que isso.

Vesti um casaco pesado por cima da calça de moletom e o par de tênis que estava junto a porta, imediatamente Bartie começou a latir, sabendo que isso significava passeio, e algo ainda melhor: comida. Coloquei a guia em sua coleira saímos para passear naquela pequena, fria e abandonada cidade americana no Natal. Caminhamos cerca de seis blocos até acharmos um café aberto, que não pela surpresa, também estava vazio. Sentei nas mesas de fora, para que Bartie pudesse ficar comigo, educadamente, ele sentou-se ao meu lado, abanando o rabo alegremente.

- Em que posso ajudar? – Indagou a garçonete com um sotaque diferente, talvez do Texas.

- Hm...duas garrafas de água, um café triplo e dois pães...- Fiz uma pausa, olhando para Bartie e ele latiu, confirmando. - ...com manteiga.

- Ok...anotado!- Disse a menina que escrevia tudo em um bloquinho. Nosso olhar se cruzou e  ela pareceu achar ago engraçado. Fiquei incógnita, sem saber como agir e me senti, de certa forma aliviada quando ela se afastou. Cerca de dez minutos foram necessários até que ela voltasse com nosso pedido, mais agitado ainda, Bartie começou a latir, possivelmente estava tão faminto quanto eu.

- Obrigada! – Agradeci.

- Se precisar de mais alguma coisa é só me chamar! Espero que tenha um ótimo Natal...

- Não sei se será tão ótimo, mas obrigada! – Não pude deixar de dizer, meu mau humor matinal não era algo do qual eu me orgulhava, e que era ainda mais acentuado em manhãs de ressaca. Só quando ela desviou os olhos para se afastar novamente, que percebi o quão verde eles eram. Respirei fundo, tentando me concentrar em meu café da manhã. Um pão foi para mim e o outro para Bartie, enquanto eu bati as duas garrafas de água gelada  e logo em seguida meu café triplo. Assim que terminamos, coloquei o dinheiro referente ao pedido na mesa e olhei mais uma vez a garçonete de longe, desta vez, ela parecia concentrada em contar o dinheiro do caixa. Tirei uma caneta da bolsa e no copo de papel que me foi servido o café, escrevi:

“Por trabalhar na manhã de Natal, acho que você merece mais um feliz Natal do que eu. Te desejo só meio turno por hoje, já que uma vez que está aqui, não posso desejar um dia de folga.
Ass: A garota que pediu um pão com manteiga para o cachorro, vulgo Lia.”

Deixei o café sem me despedir e segui meu caminho para o parque com Bartie. O parque não era tão longe do meu pequeno apartamento, era na verdade um dos lugares favoritos dele, e considerando que eu não pude dar a ele a ceia que merecia, achei que um passeio no parque era o mínimo que eu poderia fazer. Demos três voltas até acharmos uma pedra aconchegante próxima ao pequeno lago que agraciava o parque. Aquele lugar conseguia estar ainda mais vazio que o resto da cidade, mas não me incomodei,  silêncio na verdade era um aliado. Soltei Bartie de sua guia para que ele pudesse ter mais liberdade e enquanto ele se divertia, peguei o livro que carregava em minha bolsa e comecei a lê-lo. Não sei ao certo quanto tempo se passou, mas fui retirada da minha viagem literária com os latidos de Bartie. Quando olhei para trás, lá estava ele, alguns metros de distância de onde eu estava sentada, latindo para a garota que se aproximava da nossa direção – a garçonete do café.

- Ei, ei Bartie, calma ai amigão! – Tentei chamá-lo, mas conforme ela se aproximava mais animado ele ficava, talvez esperasse ganhar outro pão com manteiga, eu não sei. Quando ela estava perto o suficiente, não deixei de mostrar o quão surpresa eu estava. – Olá...? – Indaguei, meio incerta.

- Garota que pediu um pão com manteiga para o cachorro... – Ela repetiu como eu havia assinado meu bilhete.

- É...ou Lia! Também atendo por esse nome...- Dei de ombros e acabei rindo, esticando minha mão em sua direção. Mas, ela recusou.

- Eu ainda prefiro o primeiro...- A moça sorriu de canto.

- Er...ok..você escolhe! – Ela era estranha, eu tinha que admitir. – Mas...como sabia que eu estava aqui?!

- Digamos que esta não é uma cidade tão grande, nem tão cheia de lugares para se levar o cachorro...e imaginei que com essa sua ressaca “braba” você poderia estar querendo espairecer...e...enfim, arrisquei aqui! – Ela explicou calmamente.

- Seus palpites são bons...mas...ressaca?- Eu definitivamente era péssima em disfarçar.

- Eu não tenho muito tempo, na verdade um intervalo de apenas quinze minutos. Mas eu acho eu nós duas merecíamos um Natal melhor...

- Talvez o do ano que vem...mas acho que este está um pouco tarde para...- Ela me interrompeu. Tudo aconteceu muito rápido e quando me dei conta seus lábios haviam se unido aos meus como um só em um beijo. Fechei os olhos, mas antes que eu pudesse aproveitar aquele beijo, a moça de afastou.

- Eu tenho que ir! – Ela falou rapidamente, em um sorriso misterioso. Ela era toda misteriosa.

- Mas espera...- Eu disse quando vi que ela falava sério, quando se afastava de mim e Bartie. – Eu nem sei seu nome...e eu preciso saber o nome da responsável pela magia do meu Natal...- Só depois percebi o quão clichê havia sido, para não dizer o quão ridícula.

- Você não precisa do meu nome, garota que pediu um pão com manteiga para o cachorro, você sabe onde eu trabalho!


Por Lis Selwyn
25/12/2014

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