sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Alice (Conto)




Alice


E então Alice entrou na sala.

 Parei de rabiscar as bordas do caderno, parei de enxergar linhas, e meus olhos, por de trás dos óculos, se fixaram à sua entrada no recinto. Seus passos firmes e sua falta de carisma e sorrisos foram o suficiente para me deixar vidrada na garota de vestes pretas e maquiagem pesada. Ela era esguia, meio sem forma e não tinha nada de encantador, mas me encantou. Era aula de Matemática, a que eu mais odiava, mas não me importei. De repente pareceu interessante estar ali. Ainda assim, antes de continuar esta estória, antes você se prender ou não aqui, deixe-me contar quem é Alice.

Conhecemos-nos antes mesmo do que ela imagina. Na verdade começamos a estudar juntas na terceira série do Ensino Fundamental, apesar de ela nunca ter me notado até certo dia atrás. Ela chamou minha atenção desde o início, desde aquela aula de artes bagunçada e cheia de tinta. Sua pele extremamente pálida, os fios pretos escorridos e as roupas escuras e sem graça sempre fizeram parte de seu figurino, talvez fossem mais presentes agora, no último ano do colégio, em que ela tinha mais autonomia para escolher as roupas, mas, ela sempre tivera um estilo macabro e sórdido. Sempre estivera fora da linha, padrão e até mesmo sociedade. Estranho dizer que ela “chamou minha atenção”, porém, não só isso ela fez, como roubou um sentimento muito maior de dentro de mim. Suas atitudes iam além do que qualquer um pudesse prever, nem Lewis Carroll conseguiria descrevê-la. Ela vivia em seu próprio mundo, não sei se era exatamente o País das Maravilhas, mas existia um universo próprio dela, lugar o qual eu sonhava em poder adentrar, viver e me perder.

Semana passada, na Quarta-feira, eu estava apressada para chegar à aula com o cartaz de minha apresentação em mãos quando Alice surgiu em meu caminho. Antes que eu pudesse vê-la, tropecei, fomos ao chão. Uma cena tão clássica e clichê, tão comum para pessoas incomuns como as que éramos.

- Desculpe... - Eu pedi, sem encontrar algo melhor para dizer. Engraçado era esperar tantos anos por aquela aproximação e de repente, não conseguir pensar em nada mais original.

- Não tem problema. – Sua voz soou fria como sempre era quando os professores pediam para que ela respondesse alguma pergunta. De repente, quando nossos olhos se encontraram, pareceu haver um silencio mútuo. Um silencio de entendimento, por mais controverso que isso soe.  Foram segundos, capazes de representar minutos, horas, dias, meses, anos, décadas... milênios. Os lábios de Alice se entortaram para o lado esquerdo, o máximo de “sorriso” que eu já vira ser arrancado daqueles lábios, e acredite, eu os conhecia como nada neste mundo. – Meu nome é Alice...- Ela estendeu a mão, se levantando e oferecendo-me apoio para que eu pudesse também me levantar.

- E-eu sei...estudamos juntas desde o...- Seus olhos começaram a arregalar-se conforme eu falava que repentinamente decidi congelar minha frase. Reinventar, buscar outra fala. Novamente, caí na falta de originalidade. – Sou Becca...Rebecca.

- É um prazer! – Alice sorriu, desta vez um sorriso inteiro, de encher os lábios, o rosto, a alma. Talvez, se ela sempre sorrisse daquela maneira, não seria tão criticada, tão ”estranha” ao ninho que era a sala de aula. Porém, se ela sorrisse sempre daquela forma, eu não teria sentido o que eu senti. Que aquele sorriso era para mim, única e exclusivamente. Sorri de volta, mas antes que eu pudesse apertar sua mão, retribuindo aquele cumprimento, Alice soltou, quebrando aquele contato que nos unia. Ela andou, partiu, me deixou. E eu fiquei a observa-la, à deriva, como sempre ficava, até que ela se tornasse uma silhueta longe, um vulto, um nada. Meu amor, platônico, mas meu amor. – Tive vontade de dizer, de gritar, porém me calei, como sempre fazia. Continuei meu caminho, para a sala de aula. Os professores já estavam à espera, era minha vez de falar. Abri o cartaz que eu tinha em mãos e notei vários pares de olhos me encarando, mas lá ao fundo, na última carteira, Alice parecia não me notar, era como se nunca tivéssemos nos apresentado, como se nem estudássemos no mesmo ambiente. Respirei fundo, buscando as informações da minha apresentação que pareciam haver se perdido em minha cabeça.

 Em algum momento, pensar em Alice pareceu algo distante, e consegui me compenetrar. Várias pessoas aplaudiram o final, o trabalho que eu havia tanto me empenhado para fazer. Mas em meio a palmas e olhares felizes, de comemoração, vi um em especial me olhar e permanecer. Possivelmente, ela me encarou por uma fração de segundos, mas que em minha cabeça transformaram-se em minutos, horas, dias, meses, anos, décadas... milênios. Os lábios de Alice se entortaram levemente para o canto esquerdo do rosto em um sorriso torto, e eu retribuí, com um sorriso inteiro, com toda a vontade de sermos inteiras que eu carregava durante tanto tempo dentro de mim. Talvez esse seja o máximo que eu conseguirei de Alice, um olhar de fração de segundos e um sorriso torto, mas, para mim, bastou. Em minha mente, seu olhar foi eterno e seu sorriso inteiro, como era o meu amor por ela.

Por Lis Selwyn
30/01/2015

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