domingo, 12 de abril de 2015

Amor e Liberdade - Capítulo I

Capa: Paula Curi - Projeto Expresso da Literatura

Capítulo I

Era uma tarde chuvosa. Não que isso seja um fato relevante na história, mas de certa forma a chuva me agrada, acalma, acolhe. Talvez seja só um mecanismo de associação, identificação, já que grande parte de mim vive em uma tempestade, em uma busca interior insaciável. Eu estava na frente do meu prédio, em pé, segurando o guarda-chuva e aguardando-o. Sentia-me desconfortável na botinha preta de salto alto e na saia não tão curta, mas um pouco mais curta do que eu gostaria. Hora ou outra eu teria que abandonar o moletom, a calça jeans e o tênis surrado, ainda que eu sentisse que aquela não fosse a hora.
O Gol vermelho apontou na esquina e eu sorri, para mim mesma, ele ainda não podia ver meu sorriso. Estacionou o carro na vaga em frente ao meu prédio e foi então que parti em direção ao seu carro. Ricardo saiu do carro, me cumprimentou com um selinho nos lábios e deu a volta para abrir a porta do passageiro. Eu entrei. Ele era alto, beirava os dois metros de altura, e estava todo elegante em sua calça jeans escura e camisa branca.
- Está pronto?! – Perguntei ansiosa, encarando-o nos olhos antes que ele desse partida no carro.
- Acho que sim! – O rapaz me respondeu com um brilho único nos olhos esverdeados. – Se importa se antes de irmos para o barzinho, passarmos no Shopping Ibirapuera para buscar minha irmã?! Ela retornou este final de semana da França...
- Não, claro que não! Sem problemas, finalmente vou conhecê-la! – Sorri e então seguimos em direção a Rua da Consolação. 
Ricardo e eu não éramos um casal típico, apesar de parecermos. Ao menos essa era a visão que eu tinha em minha mente. Estávamos juntos há sete meses e desde então não havíamos brigado uma única vez. Ele era três anos mais velho que eu, já era formado, tinha emprego fixo e carro próprio, enquanto eu, ainda estava no segundo ano da faculdade, lutando por uma bolsa auxílio de estágio. Diferenças a parte, tínhamos muito em comum. Gostávamos dos meus filmes, seriados- ele me apresentara The Big Bang Theory, Dexter, Game of Thrones e The Walking Dead, suco de maracujá e chocolate. Ah, chocolate! Antes dele, eu nunca havia conhecido homem algum que gostasse tanto de chocolate como ele. Tínhamos também o mesmo gosto musical, o que facilitava muito nosso entendimento, e ele me acompanhava nas aulas de dança de Lindy Hop. Digamos que eu não podia reclamar, ele era tudo que eu havia buscado ao longo dos meus dezenove anos, e mesmo assim, eu ainda sentia que éramos um casal atípico. 
Quando estávamos nos aproximando do Shopping Ibirapuera, Ricardo pediu para que eu me atentasse. 
- Flora deve estar aqui por perto...- Ele passava os olhos na calçada como se fizesse uma busca minuciosa. Passei a procurá-la junto com ele, muito embora nunca tivesse visto sua irmã antes. Nesses sete meses eu imaginei “Flora” de várias formas possíveis. A primeira coisa que havia me passado pela mente fora que tipo de pais colocariam esse nome na filha?! Nada contra, mas eles só poderiam ser hippies...ou algo do tipo. Depois, passei a imaginá-la como hippie. O cabelo longo, um saião indiano colorido com uma pedrinha colada na testa e todas essas coisas. Quando soube que ela estava fazendo uma pós em Arquitetura na França, a imagem dela se confundiu mais ainda. Em minha cabeça tentei criar uma moça hippie com estilo francês, mas foi impossível. Quando ele apontou para sua irmã, ela era tudo, menos o que eu havia imaginado. Meus olhos captaram a moça que se aproximava do carro. Ela tinha cabelos castanhos, bem escuros, quase pretos e a pele branca, praticamente pálida. Em seus olhos, reconheci o mesmo tom de verde que havia nos olhos de Ricardo, mas diferente da ternura e bondade que ele transbordava, seu olhar era sério e seco, se é que pode-se descrever um olhar desta forma. 
Flora entrou no carro sem sorrir, cumprimentou Ricardo que havia lhe saudado e me deu um rápido sorriso, sem delongas ou floreios. Nossos olhos rapidamente se encontraram no espelho retrovisor do carro. Embora eu quisesse encará-la mais, não consegui, acabei desviando meus olhos assim que ela sustentou aquele olhar, de uma forma nada simpática. Segundo meu namorado, ela tinha vinte seis anos, embora eu não fosse capaz de dar nem vinte dois anos a ela. Seguimos para o barzinho que ficava nas proximidades, o único que parecia realmente ansioso e não se calava nem por um segundo, era Ricardo.
- The Strokes, The Cure e Metallica para finalizar...fala se não é a playlist perfeita, mana! – Ric falou animado para Flora e pela primeira vez vi surgir um sorriso em seu rosto. Eu podia dizer com certeza, eles também compartilhavam do mesmo gosto musical.
- Ainda acho que falta Slipknot ai...- Foi a primeira vez que ouvi uma sentença vinda dela maior do que um simples “oi”, e, mais uma vez fui surpreendida pela voz suave que Flora tinha.
Estacionamos em frente ao bar de jazz, que naquele dia, em especial, abriria seu leque de especialidade musical para os estudantes da escola de música que Ricardo fazia parte. Descemos do carro e ele logo segurou minha mão e sussurrou em meu ouvido.
- Estou muito feliz por compartilhar da minha primeira apresentação com você!
- Eu também estou muito feliz por estar aqui! – Disse com sinceridade, porém algo, parecia me deixar mais área que antes, algo parecia ter me afastado dele, embora estivéssemos abraçados.
- E ai, as baquetas estão prontas?! – Flora se aproximou, cutucando o irmão com o cotovelo e se direcionando somente a ele. 
- Estão no bolso, preparadas! – Ric exclamou com um sorriso maroto.
Ela parecia me ignorar e esquecer por completo que eu estava ali. Enquanto eu, só desejava ter um instante que fosse da sua atenção.

2 comentários:

  1. Gostei da sua forma de escrever... Você coloca um leve suspense para gerar uma curiosidade e nos convida a viajar na sua bela história...

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    1. Olá, seja muito bem vinda e espero que você continue curtindo esta aventura pela cabeça de Cecília que é Amor e Liberdade! Tenha uma ótima leitura

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