quarta-feira, 10 de junho de 2015

Amor e Liberdade - Capítulo XIII



Capa: Paula Curi - Projeto Expresso da Literatura


Mesmo dormido tarde no dia anterior, me levantei relativamente cedo. Nove horas, para ser mais exata. Tomei um banho e me aprontei com roupas leves, preparada para o calor que a Avenida Paulista costuma ser no verão. Despedi de meus pais sem muito dizer, e sai de casa. Na própria Rua da Consolação peguei um ônibus e logo no primeiro ponto da Paulista desci.


Atravessei a avenida e caminhei em direção a Bela Cintra, tive a estranha sensação de estar sendo seguida desde o ônibus, porém, quando olhei para trás não havia nada além de algumas famílias que aproveitavam o dia de sol para passar um pouco do tempo com os filhos. Tentei me desvencilhar daquela estranha sensação e cheguei à Bela Paulista quinze minutos antes do combinado. Fiquei aguardando Flora na porta e entre a saída e a entrada da movimentada padaria até que a vi surgir na rua. Sorri, esquecendo de tudo, até mesmo de quem eu era e de onde estava. Para mim, só existia Flora quando ela entrava em meu campo de visão. 

Hesitei em como deveria cumprimentá-la e como se lesse minha mente, Flora me abraçou e beijou meu rosto, com ternura e afeto. Caminhamos para dentro da padaria e eu deixei minhas preocupações lá fora. Sentamos em uma mesinha e a garçonete logo anotou nossos pedidos. Um café expresso para Flora e um suco de maracujá pra mim, além de uma cestinha de pão de queijo.

- Eu altamente recomendo que depois você experimente o brownie deles...é divino! – Flora apontou para uma foto no cardápio.

- Hmmm...eu já quero pedir! – Senti água na boca ao ver aquela imagem, deveria ser realmente incrível.

- Não senhora, primeiro o salgado! - Ela me repreendeu e eu acabei rindo.

Nunca havia parado para pensar na diferença que havia entre nós duas. Existia ali pouco mais de seis anos de diferença. Seis anos que separava a insegurança da segurança, a instabilidade da estabilidade e a submissão da liberdade. Tentei imaginar como eu seria com seis anos a mais, mas não consegui, a única coisa que me veio a mente é que como Flora, eu dificilmente conseguiria ser.

A morena tomou um gole do café e eu beberiquei meu suco.

- Como passou a noite? – Ela indagou e em minha mente veio todas as preocupações que havia me impedido de ter um bom sono.

- Com saudades...- Sorri, eu não estava mentindo, realmente havia pensado em Flora a noite inteira.

- Saudade é bom! – Ela deu uma risada de desenho animado, como se estivesse conspirando. – Significa que meu plano de conquistá-la está dando certo...- Flora brincou.

- Ahh, então você tem um plano? – Perguntei, surpresa.

- Mas é claro! – Ambas rimos.

Comi um pão de queijo e ficamos caladas por alguns instantes, até que resolvi quebrar o silêncio.

- Eu queria tanto poder te levar em casa...te apresentar para os...- Flora segurou em minha mão de uma forma carinhosa, porém, como se quisesse me interromper. Parei de falar.

- Não se preocupe com isso.

- Como não me preocupar?- Suspirei, a ponto de entregar os pontos. Nos últimos anos eu vivera intensamente, saboreara o melhor que a vida poderia me dar, mas também sofrera a angústia da autoaceitação. 

- Simples...não faça disso uma grande coisa. O que você sente é errado?

- Não, mas...

Flora me interrompeu novamente.

- Então não tem “mas”, você não precisa se sentir culpada.

Tentei abstrair tudo, como Flora havia recomendado. Ela tentou me distrair com o brownie e ele era realmente divino. Fiz uma nota mental para sempre confiar no gosto dela para doces.

Deixamos a padaria por volta da uma hora, quando a maioria das pessoas estava chegando para o almoço. Caminhamos por toda a Avenida Paulista. Paramos no Conjunto Nacional para passearmos pela Livraria Cultura, no MASP, parque Trianon, Reserva Cultural e caminhamos até a Casa das Rosas. Confesso que já fazia algum tempo que, mesmo morando em São Paulo, eu não fazia um tour pela minha própria cidade. Sentamos em um banco em meio ao jardim da Casa das Rosas. Foi-se o tempo em que aquela casa era repleta de rosas, porém, ainda assim continuava um lugar agradável. Deitei a cabeça no ombro de Flora e ela me abraçou, ficou afagando meu cabelo. Não falamos absolutamente nada, nos entendíamos entre o silêncio de nossas almas falantes. Depois de alguns instantes, talvez minutos ou até horas, Flora tornou a falar.

- Você gostaria de ir ao cinema comigo?!- A olhei surpresa.

- Mas é claro! – Eu sorri e Flora não perdeu tempo. Levantamos-nos e seguimos caminho para o Shopping Paulista. Ela quis que eu escolhesse o filme, e peguei o primeiro filme de suspense que encontrei no catálogo. 

Entramos na sala de cinema, acompanhadas de refrigerante e pipoca. A sala, não por surpresa, estava lotada. Afinal, era final de semana. Acomodamo-nos em nossos lugares e a luz do cinema foi abaixando gradativamente até sobrar apenas sombras.

Confessei em sussurro para Flora.

- Eu daria tudo por um beijo seu agora...

Entreolhamos-nos, mesmo com a escuridão pude ver um sorriso irresistível em seus lábios. A beijei em meio ao cinema lotado.

Um comentário:

  1. É uma sensação... Muito sensação boa!!! O beijo te aquece do frio do ar condicionado da sala de cinema... Pura felicidade!!!

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