sábado, 15 de agosto de 2015

Amor e Liberdade - Capítulo XXX


Capítulo XXX

Flora não disse nada na frente dos meus colegas do trabalho, porém, quando entramos no carro ela desatou a falar.

- Eu acho que agora que você foi efetivada, você precisa...

- Por favor, não Flora...- Tentei impedir que ela começasse com as lições de moral. Ela falava como se fosse muito responsável.

- Não? Engraçado, na hora de me ligar pedindo que eu fosse te buscar não foi não...

- Eu não pedi...- Como se me ignorasse ela continuou.

- Quando foi me apresentar para os seus colegas também não foi...

- Eu não podia falar sobre você...sobre a gente, você sabe que eles são...- Mas a partir desse momento foi uma cortando a fala da outra.

- E para aquela sua amiga você também não podia falar? Você levou ela para a nossa casa e não podia falar sobre a gente? – Flora me indagou quando paramos no farol. Eu estava preocupada com ela dirigindo naquele estado.

- Flora, eu...

- É normal ter medo da rejeição...é absolutamente normal,  o que você não deve fazer é fugir dela.  Hoje eu vejo que você veio para o apartamento não por ter sido exatamente expulsa, mas por ter medo de encarar seus pais todos os dias com as decisões que você tomou.

- Isso é um absurdo, eu fui para viver a nossa vida! – Enfatizei o “nossa”, não acreditando no que eu ouvia de Flora.

- Nossa vida? Isso é sério? – A morena riu e pareceu estar cheia de descaso. – Porque a impressão que eu tenho é que você está lá só de passagem, às vezes me pergunto se você acha que não está em um hotel. Você larga as coisas pela casa, não atende o telefone, não faz um jantar para a gente...

- Flora...eu...- Senti meus olhos enxerem de lágrimas, as palavras dela realmente me machucavam. Minhas mãos ficaram tremulas, de todas as pessoas do mundo, ela era a última que eu pretendia escutar dizer algo assim. A verdade é que eu poderia até não fazer algumas coisas, mas a maioria delas é porque eu nunca havia feito, como, por exemplo, cozinhar.

- Quando decidimos deixar a casa dos nossos pais, temos que crescer também...- Ela dizia, enquanto dirigia, eu podia ver que nos aproximávamos de casa, e não podia dizer o quão aliviada eu me sentia. Eu segurava na lateral do banco, torcendo para que nada de mal acontecesse a nós, enquanto Flora fazia manobras bruscas nas ruas vazias da madrugada.

- Eu acho uma injustiça você dizer essas coisas, eu consegui uma promoção...consegui uma bolsa de estudos...

- Você acha que é suficiente? Que é só isso?

- Não, mas...

-Não existe “mas”, você se quer se assumiu.

- Lógico que eu me assumi, eu vim morar com você! – Argumentei enquanto Flora estacionava o carro em frente ao nosso prédio.

- Você veio morar comigo, nós vivemos juntas, jantamos juntas, tomamos banho juntas, dormimos juntas...e eu ainda sou sua amiga. – Ela disse toda ofendida.

- Flora, desculpe...eu não sabia o que dizer...como dizer...eu...

- Eu que peço desculpas, Cecília, mas eu não tenho mais idade e nem quero viver na indecisão, eu já passei dessa fase e não é com uma pessoa indecisa e imatura que eu quero estar.

Aquelas palavras me atingiram como uma bala, certeira e fatal.

- O que você quer dizer?!

- Não tem o que dizer, tudo já foi dito. Eu acho melhor você sair do carro.
Abri a porta e a olhei, as palavras se embolaram em minha garganta, eu não poderia acreditar no que estava acontecendo.

- Você não vem?- Indaguei.

- Dessa vez não, eu preciso espairecer minha cabeça.

Sai do carro e Flora não olhou para trás, não parou na esquina, muito menos deu a volta no quarteirão. Fiquei dez minutos ali, na calçada, na sarjeta, esperando que ela voltasse ou que eu acordasse de um terrível pesadelo, mas nenhuma das coisas aconteceu. Entrei no prédio e o porteiro me parou.

- Srta Cecília, eu disse que nenhuma das duas estavam em casa, mas o rapaz insistiu em esperar...- Ele apontou na direção de Ricardo que aguardava pacientemente em um banco de madeira na entrada do prédio. Era o que faltava para minha noite terminar bem.

Aproximei-me da entrada dos elevadores e ele se levantou.

- Eu achei que vocês não chegariam nunca...- Ele disse e sua voz pareceu longe, tudo o que eu conseguia pensar era Flora, eu precisava encontrar uma forma de ir atrás dela e pedir desculpas, tentar mais uma vez.

- Agora não, Ricardo...- Eu pedi.

- Você sabe da minha irmã? – O rapaz correu atrás de mim assim que passei por ele.

- Eu não sei e preciso encontrar uma forma de ir atrás dela.

- Eu também. Vocês brigaram? – Ele indagou, todo curioso. Revirei os olhos, odiava o tipo de pessoa que se aproveitava da situação.

- Não...quer dizer, não é da sua conta. – Parei e o encarei. – Por que você precisa encontrar ela?

- Eu...- Vi sua voz sumir por um instante. – É sobre nossa mãe.- Ricardo disse e me senti ainda pior.

- Ela está bem? – Perguntei e o rapaz de cabelos castanhos desviou os olhos, percebi que estava triste e me preocupei ainda mais.

- Ela...- Mas sua voz sumiu. – Eu realmente preferiria falar primeiro com Flora...

- Eu não sei onde ela está, bem que eu gostaria...

- Vocês brigaram? – Ricardo voltou a perguntar.

- N-...- Comecei a falar, mas ele me interrompeu.

- É sério, essa informação é importante...eu conheço Flora melhor do que ninguém.

Revirei os olhos e contrariada, respondi.

- Sim...brigamos.

- Então já sei para onde ir. – Ele apontou para fora do prédio e vi o Gol vermelho.

- Para onde vamos? – Perguntei, desconfiada.

- Você confia em mim? – Ricardo indagou.

- Eu não...

- Você não tem escolha! – O rapaz deu de ombros ao me interromper e eu sabia que ele tinha razão. O segui até seu carro do lado de fora do prédio. Adentramos e apesar das inúmeras tentativas de Ricardo de puxar assunto, eu preferi o silêncio, e mal o respondi. Quando adentramos a movimentada rua, eu imediatamente reconheci era o primeiro barzinho que Flora me levara. Imediatamente todas as lembranças percorreram minha mente e aquilo fez com que meus olhos ficassem marejados. – Você está bem? – Ricardo perguntou.

Apenas concordei com a cabeça e assim que embicou o carro em um estacionamento, pedi.

- Eu posso ir sozinha? Sei que tem assuntos para resolver com ela...mas...

Para minha surpresa, não foi preciso terminar a frase argumentativa que eu usava.

- Tudo bem. – Ele respondeu e então eu deixei o carro.

- Eu volto com Flora...- Prometi e foi a última coisa que disse para ele, antes de seguir para o bar do outro lado da rua. Pelo adiantar da hora, eram quase três da madrugada, não havia mais fila para entrar e eu agradeci no mesmo instante por isso. As lembranças não me assombravam, na verdade faziam ver que eu precisava lutar com unhas e dentes para trazê-la de volta para mim. Porém, quando meus olhos finalmente a captaram no balcão do bar eu vi a única Flora que eu esperava não encontrar. Ela estava rindo com uma garrafa em mãos, pelo seu rosto corado, eu sabia que aquela não era a primeira e não seria a última cerveja que ela tomava. Do outro lado, no outro banco, uma moça de cabelos loiros e ondulados, e uns quatro anos mais velha que eu, conversava com Flora com mais proximidade do que eu gostaria. Elas pareciam se entender, se conhecer há mais tempo do que eu imaginaria e aquela cena fez meu estômago queimar. Não sei se foram as cervejas que eu havia tomado antes ou vê-la com outra mulher, mas eu me senti horrivelmente nauseada. Como Flora poderia fazer isso? Ela estava no nosso bar, no lugar que dizíamos fazer parte da nossa história, flertando com outra garota. A mulher segurou no ombro de Flora, acariciando-o com a ponta dos dedos, e para mim, aquilo foi a gota d’água. Por um instante algo pareceu chamar a atenção da morena, ela olhou em minha direção e meus olhos cheios de lágrimas desviaram rapidamente dos dela. Corri para fora do bar sem conseguir conter o choro.

Esbaforida, cheguei ao carro de Ricardo. Ele saiu do carro ao ver meu estado.

- O que aconteceu? – Ric me encarou e eu comecei a chorar descontroladamente. Ele me abraçou forte e eu o abracei de volta. Chorei em seu ombro até soluçar e foi então que ele me confessou:


- Eu não fui espiar a vida de vocês hoje de madrugada...na verdade, eu fui atrás de Flora porque nossa mãe foi internada...acreditam que ela esteja com Alzheimer. 

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