segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Amor & Liberdade - Capítulo XXVII


Capa: Paula Curi - Palavras, Expressões e Letras


O final de semana chegou rapidamente. A semana havia voado, eu ainda não tinha a resposta da bolsa de estudos, mas acreditava fielmente que havia feito uma boa prova. Em minha mente, eu tinha feito diversos planos para o final de semana, mas a notícia de que Flora iria para Ilha Bela, me tirou completamente o chão. Nesses últimos dois meses não havíamos nos separado um dia sequer e a ideia de ficar sozinha em casa, sem ninguém para conversar, para me fazer companhia, me atormentava.


- Mas por que você não me avisou antes? – Indaguei para Flora quando ela estava na porta com a mochila verde pendurada no ombro.

- Eu só fiquei sabendo hoje que iria, Ricardo me ligou...- A interrompi, fui tomada por uma ira que não soube exatamente de onde veio.

- Ricardo?- Flora me conhecia, soube ler a forma como falei e minhas expressões.

- Não adianta fazer essa cara, Cecília...ele é meu irmão! Você tem a opção de se afastar dele, eu não...

- É lógico que você tem! Eu me afastei dos meus pais, não me afastei? – Indaguei a Flora, mas me arrependi no instante seguinte.

Ela revirou os olhos, e eu sabia que quando isso acontecia, lá vinha um argumento com o qual eu não conseguiria debater.

- Você se afastou dos seus pais? – Ela riu em tom de deboche. – Você correu, fugiu deles, é diferente.

- Você está reclamando por eu estar aqui?- Cruzei os braços encarando-a, eu sentia tanta raiva que meus olhos ameaçavam a enche de lágrimas. Eu odiava quando Flora insinuava que eu era imatura, ela também não era nenhum exemplo.

- Não estou reclamando, mas eu não concordo com várias atitudes suas...que eu achei que mudariam uma vez que você saísse das asas de seus pais...

- Eu...- Mas não consegui terminar a frase. Encaramos-nos uma última vez e Flora saiu pela porta. Foi horrível deixá-la ir daquela forma. Nós nunca havíamos discutido assim.

Fui para janela que dava de frente para a rua, de lá, a vi entrar no carro de Ricardo, o Gol vermelho. Engoli em seco, podia imaginar os dois se abraçando, conversando e ela até contando detalhes da nossa vida, enquanto eu estava ali, deitada na cama encarando o teto, sem ninguém, sem família. Por um instante me indaguei se havia valido a pena. Eu não duvidava de meus sentimentos por ela, de jeito nenhum, mas eu duvidava se havia feito a escolha certa. Eu abrira mão da minha vida inteira, da minha família e uma parte da antiga Cecília para estar com ela, enquanto Flora, não parecia ter aberto mão de muita coisa. Ela nem havia me contado que estava falando com ele. Bom, talvez eu fosse a idiota de não ter imaginado isso. Mas me senti ofendida da mesma forma.

Passei o final de semana em casa, rodando os filmes no Netflix, mas não parando exatamente em nenhum. Durante o sábado me alimentei de salgadinhos, de sorvete e de tudo quanto foi besteira que encontrei na geladeira. Fiz dois trabalhos da faculdade e quando o domingo chegou eu estava mais inquieta do que nunca.

Rodei no celular meus contatos do telefone até encontrar o telefone de uma das minhas amigas mais próximas da faculdade. Eu havia me afastado dela, como havia me afastado de quase tudo quando comecei a sair com Flora, mas talvez aquele fosse o momento para retomar as amizades. O telefone tocou, e eu aguardei na linha.

- Alô? – Reconheci a voz fina do outro lado da linha respondendo a chamada.

- Lívia! – Exclamei, como era bom falar com alguém.

- Cecília? – Suspirei aliviada por ela também me reconhecer.

- Como é bom falar com você!

- Está tudo bem? – Ela pareceu ter estranhado aquele telefonema repentino em pleno domingo.

- Sim...eu só...tive saudade do primeiro ano da faculdade! – Acabei rindo sem jeito, não sabia como expressar o que eu estava sentindo. Sentia-me vazia por dentro, mas tinha quase a certeza de que não conseguiria explicar o motivo disso para Lívia.

- Nós éramos inseparáveis! – Ela exclamou e me lembrei do primeiro dia de aula. Nós éramos tímidas e não havíamos nos enturmado com ninguém no trote de economia. Ela estava no canto do bar, isolada e tomando soda, quando me aproximei com o suco de maracujá. Posso dizer que foi amizade à primeira vista, se é que isso existe. Conversamos mais um pouco e eu a convidei para vir no apartamento, afinal era a melhor forma de eu me distrair. Lívia aceitou e quando ela chegou relembramos o primeiro ano da faculdade, passamos o dia vendo séries e discutindo qual temporada era a melhor. Eu não havia tocado no nome de Flora, se quer havia mencionado sobre eu estar me relacionando com uma menina. Eu não podia adivinhar qual seria a reação dela, e na dúvida, preferi não mencionar nada.

- Bom, eu acho que já deveria ir! – Ela se levantou depois de estarmos com a barriga dolorida de tanto rir.

- Mas já?- Perguntei, a verdade é que não queria ficar novamente a sós com o fantasma da solidão.

- Amanhã tem aula, boneca, esqueceu? – Eu acabei rindo, Lívia tinha algumas gírias que eram para lá de ultrapassadas, mas de alguma forma aquele modo de falar combinava com ela e não ficava bizarro como na maioria das pessoas.

- Nem me fala...- Bufei e quando nos aproximamos da porta, para nos despedirmos, ela se abriu. Engoli em seco, não pelo que Flora fosse achar, mas pelo que Lívia poderia achar daquilo. Flora não sorriu, apenas espreitou de canto de olho minha colega, daquela forma nada simpática que a conheci.

Percebi que ela iria se aproximar, provavelmente para me cumprimentar, mas me esquivei, mudando rapidamente de assunto e fazendo as apresentações.

- Flora, esta é Lívia...minha colega da faculdade...

- Lívia, esta é Flora...- Parei sem acrescentar nenhum adjetivo a ela. A morena me encarou, mas desviou o olhar, eu sabia que discutiríamos aquilo depois. Ela cumprimentou Lívia que depois de alguns instantes arrumou uma desculpa para sair do apartamento sorrateiramente. Quando fechamos a porta, Flora começou a falar.

- Eu não sabia que você tinha visita...- Eu senti algo diferente em sua voz, talvez fosse ciúmes e de certa forma gostei de ter provocado isso nela.

- Eu só quis me distrair...

- Hã...- Foi tudo o que ela disse.

- A casa também é minha...- Rebati, inquieta com a atitude de Flora e as poucas palavras. – Não é?

- Claro...

Foi tudo o que a morena respondeu. Naquela noite de domingo e nem em nenhuma outra tocamos novamente no assunto. Eu sabia que ela havia ficado incomodada, mas eu também estava com sua ida repentina para Ilha Bela com o irmão. Pela primeira vez desde que eu havia me mudado para o apartamento, dormimos de costas uma para a outra.

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