quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Amor & Liberdade - Capítulo XXXI



Capítulo XXXI

As palavras de Ricardo me atingiram bruscamente e achei que fosse perder o chão. Eu havia visto a mãe de Flora uma única vez, naquela viagem para Ilha Bela, e me lembrava dela com tanta alegria, paz e tranquilidade que era impossível acreditar que uma mulher daquelas teria problema.

- E-eu sinto muito...- Disse, relevando todo meu passado com Ricardo, tudo o que ele havia feito para Flora. Naquele momento, eu só conseguia imaginar como Flora ficaria ao ter a notícia, por mais raiva que eu sentisse dela por tê-la visto com outra mulher, eu só conseguia pensar nela e em toda tristeza que a atingiria. Durante os meses que passamos juntas, Flora sempre falara da mãe com orgulho, eu sempre sentira que havia uma ligação incomum entre as duas, essas coisas de filme, essas coisas de mãe...que eu desejava ter com a minha mãe.

- Eu te levo para casa...- Ricardo disse ao segurar em meu ombro. Pareceu me trazer de volta a realidade. Encarei seus olhos verdes e concordei. Entramos no carro e ao encostar a cabeça no banco de passageiro fechei os olhos a noite havia sido turbulenta demais, eu definitivamente nunca mais colocaria uma gota de cerveja na boca, embora a bebida amarga fosse o menor de meus problemas.

O caminho inteiro foi silencioso, não falamos, não trocamos olhares e Ricardo não tentou absolutamente nada. Eu não sabia se ele havia realmente superado toda a história, mas acreditava que, em partes, isso tinha a ver com o que a mãe dele estava passando. Como dizem, a dor aproxima as pessoas, e eu acrescento ainda mais, a dor também afasta feridas passadas. Ele estacionou na frente do prédio.

- Eu sinto muito...mais uma vez...- Eu pedi.

- Nós todos sentimos...- Ele suspirou pesadamente e então me encarou. – Escuta, você se importa se eu esperar Flora lá em cima? – Eu simplesmente concordei com a cabeça, não havia nada que ser dito.

Subimos também em silêncio, parecia que a ausência de palavras passava a ser minha nova companheira. Entramos no apartamento e eu disse para ele se sentir em casa e se acomodar no sofá, enquanto eu, segui para o quarto tentando controlar a tempestade que havia dentro de mim. Ao pensar em Flora, tudo o que eu via era aquela menina, a maneira com que se olhavam, a cumplicidade. Senti ódio, inveja e ciúmes. Senti tudo misturado e aquilo resultou em um choro repleto de soluços. Comecei a tirar minhas roupas do armário, eu sabia que lá não poderia continuar Flora havia sido bem clara. Quando puxei a mochila da parte de cima do armário, escutei a porta principal abrindo-se. Caminhei em direção a sala, acreditando ser Ricardo que havia decidido ir embora.

- Ric-...- Minha voz sumiu ao encarar Flora na porta. Ela parecia uma pilha de raiva, estava prestes a explodir.

- ENTÃO É ISSO? – Ela gritou e eu e Ricardo ficamos atônitos.  – Quando eu te vi no bar, Cecília, eu achei que algo havia mudado, que ainda havia uma chance...você tinha ido atrás...pela primeira vez você tinha ido atrás de mim e eu achei ter visto um olhar, algo que indicava mudança!

- Do que você está falando?! – Perguntei com as palavras falhas.

- DO QUE EU ESTOU FALANDO? – Ela gritou novamente.

- São cinco da manhã! – Ricardo tentou alertar, o que não adiantou de nada.

- VOCÊ CALA A BOCA, SEU IMBECIL! – Ela retrucou com ele e depois voltou a me encarar. – Eu fui atrás de você...fui atrás de você para ver vocês dois aos abraços no estacionamento...fui atrás de você para chegar NA MINHA CASA e me deparar com isso aqui...- Ela apontou cheia de ódio para o irmão, mas nada se comparava ao ódio que ela me encarava.

- Eu aos abraços?! – Apontei para mim mesma. Era um absurdo tudo o que ela falava. – Flora, eu fui atrás de você...realmente fui, e para que? Para ver que você já estava em outra?

- Eu não acredito no que você está falando...não tem nada a ver...- Ricardo tentou se aproximar da irmã para acalmá-la, mas não deu certo. – Me larga, seu cretino! – Ela esbravejou. – Eu estava desabafando, pedindo conselho...porque a maior dor que eu senti no mundo foi ter pedido para você sair do carro depois de te buscar naquele bar...

- Não se preocupe, Flora. Eu não preciso de explicações, eu sai do seu carro quando você me pediu, e agora estou saindo da sua casa e da sua vida! – Marchei em direção ao quarto sem olhar para trás, porque eu sabia que se olhasse, não seria tão forte quanto acreditava que estava sendo. Escutei Flora iniciar passos atrás de mim, mas Ricardo a impediu.

- Flora, eu sei que talvez não seja a melhor hora para isso...mas eu preciso falar com você! – O ouvi dizer.

- Eu não quero ouvi nada de você, N-A-D-A...-Ela ainda soava furiosa.

- Você precisa...-Eu os escutava na sala, enquanto fazia rapidamente minha mala.


- É sobre a mamãe...

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