domingo, 30 de agosto de 2015

Amor & Liberdade - Capítulo XXXIV


Capítulo XXXIV

Em meados de julho, em meio ao inverno e o tempo seco, Marília mudou-se para a república. Enquanto minha preocupação estava no início do TCC, tema, normas da ABNT e toda essa alegria que é esta fase da vida, Lia parecia me seguir por todo canto do apartamento. E quando não estava me seguindo, nos esbarrávamos ocasionalmente.

- Eu nem quero ver quando chegar o trote! – Ela confessou certa vez para mim. Desviei os olhos do notebook, encarando-a.

- Você não deveria ir... – Opinei.

- É...eu sei...- A vi abaixar a cabeça de forma pensativa. – Mas tenho receio de ficar sozinha depois...quer dizer, é minha primeira faculdade, não sei como essas coisas funcionam...- Lia deu de ombros. Embora fosse mais jovem do que eu, na maioria das vezes ela era extremamente madura para a idade. Ela vinha de uma família humilde do interior do Paraná.

- Olha, você não vai ficar sozinha! – Tentei confortá-la. – Relaxa, eu...eu estarei lá na faculdade. E, eu tenho uma proposta melhor do que o trote da faculdade. No lugar de ir à faculdade, você irá sair comigo...- Pisquei para ela.

- Isso é um convite? – Lia indagou com seu sorriso encantador e com covinhas.

- É claro que é!

- Mas e as faltas?- Muitas vezes seu jeito lembrava ao meu próprio no início da faculdade.

- Não se preocupe, te garanto que nenhum professor fará chamada! – Continuei encarando-a, aguardando sua resposta.

- Bom, então acho que temos um encontro...- Ela riu.

- É, eu acho que sim!

Com o passar das semanas de julho, fomos nos aproximando mais. Mostrei os quatro cantos da cidade de São Paulo para Marília, fomos ao Ibirapuera, Vila Lobos, Avenida Paulista, MAASP, Pinacoteca, Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa. Aos poucos ela se habituou aos metrôs lotados e eu a sua companhia. Riamos e nos entendíamos, qualquer um que nos olhasse caminhar nas ruas, tinha a certeza de que ali havia uma amizade de longa data. Emprestei os livros do início do curso para ela, e olha que emprestar meus livros era algo digno de uma prova de amor. Não era como se eu não pensasse mais em Flora, mas de alguma forma, estar com Lia afastava o aperto do no peito sempre que eu sentia ao lembrar dela e toda a reviravolta que minha vida havia passado.

Quando o início do curso chegou, junto vieram minhas expectativas. Eu não sabia ao certo como contar para Lia, mas eu sabia que meus sentimentos por ela ultrapassavam a amizade.

- Hmm, então por que você escolheu esse restaurante? – Marília indagou e eu desviei os olhos do cardápio, encarando-a. Ela sabia me provocar quando queria, ou eu que estava imaginando coisas demais.

Fechei o cardápio e encarei sua capa por um instante. Dizia “Athenas”, era um bar e restaurante localizado duas quadras para baixo da Avenida Paulista.

- Porque...eu....hm...- Fiquei sem resposta e busquei rapidamente uma explicação. – Por que tem um ambiente agradável e um ótimo grelhado? – Dei de ombros e Lia riu, muitas vezes eu e encarava e acreditava que ela sabia o que eu estava sentindo. – Você me coloca em saia justa às vezes, sabia? – Acrescentei, encarando-a.

- E você está reclamando? Eu gostaria de vê-la em saia justa! – Lia piscou e a forma como seus olhos castanhos me buscavam fez com que eu arrepiasse. Senti que eu finalmente poderia e deveria abrir espaço para alguém em minha vida.

- Você é terrível! – Brinquei com ela, fazendo uma careta. Nossas mãos se encontraram no alto da mesa e delicadamente passei a ponta de meus dedos pelos seus, acariciando-os. Encarei-a, querendo ver suas reações. Lia sorriu e eu quis me perder nas sardas que havia em seu rosto.

Por volta das dez horas da noite deixamos o restaurante de mãos dadas. Caminhamos juntas até o ponto do ônibus. A Avenida Paulista era diferente durante a semana e à noite. Era menos acolhedora e mais intimidadora, mas naquele instante não me preocupei, pois, era como se a tivéssemos inteira para nós. Entramos no ônibus vazio e sentamos no último banco.


O ônibus corria e parecia ter pressa para chegar, diferente de nós, que queríamos fazer o tempo parar. Quando passei um dos braços pelos ombros de Lia, protegendo-a do frio que vazia naquela noite de Agosto, nos encaramos. Parecíamos saber exatamente o que queríamos. Beijamos-nos lentamente e nem mesmo o ônibus e as ruas vazias foram capazes de nos apressarmos. Tínhamos todo o tempo do mundo.

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