sábado, 19 de setembro de 2015

Amor & Liberdade - Capítulo XXXIX


Capítulo XXXIX

Eu tinha razão em acreditar que nada seria como antes. Lia foi passar o Natal na casa dos pais e nunca mais retornou. Não mantivemos contato, não nos falamos e aquela separação pareceu doer ainda mais conforme o tempo passou.

As festividades do final do ano e as férias de verão fizeram com que todas as meninas da república viajassem para reencontrar a família e os amigos da cidade natal. Eu era praticamente a única de São Paulo, a única que tinha família ali e ainda sim, passara as festas enfurnada em casa. Eu me sentia sozinha, e não era só porque Lia estava longe, ou porque eu não tinha Flora. Era uma solidão de família, amigos. Eu sentia falta de ter alguém por perto. Passei cerca de duas semanas pensando em como seria uma reaproximação com meus pais. Eu sequer sabia se aquilo seria possível, mas ainda sim, desejava que um dia pudéssemos rir de tudo em meio a ceia de Natal. Talvez fosse sonho, talvez eles tivessem me apagado da vida deles e nem se lembrassem mais, ou, porventura, eu devesse aparecer um dia na porta de casa e esperar pela reação que meu pai e minha mãe teriam.

O início do ano foi bastante nostálgico, passei as primeiras semanas de Janeiro relembrando minha infância. A sopa de mandioquinha de minha mãe, as viagens para o litoral sul do estado de São Paulo e o colo de minha avó. Como eu sentia falta de seu colo, o ninar em sua cadeira de balanço e a proteção que seus braços me traziam. Desejei ser criança novamente, desejei ter a inocência de que tudo haveria de acontecer como nos contos de fadas. Mas, pela primeira vez, ao pensar em minha família, não desejei voltar atrás das atitudes que havia tomado em relação a minha vida. Se um dia voltássemos a nos falar, e assim eu esperava, eu não pretendia voltar atrás e dizer que tudo havia sido um engano. Eu haveria de assumir não somente tudo o que vivi com Flora, mas definitivamente tudo o que eu era. Uma mulher apaixonada, pela vida, pelos sonhos e por outra mulher.

Retornar do recesso de final de ano foi um verdadeiro alívio. Estar de volta ao trabalho e as atividades rotineiras me mantinham ocupada e eu quase não tinha tempo para pensar no que me deprimia. Aos poucos a república voltou ao seu normal, as meninas retornaram de viagem, exceto Lia, que por meio de um contato feito por seus pais, soubemos que havia transferido a faculdade para Curitiba.

Meu último ano de faculdade estava prestes a se iniciar, faltavam exatamente uma semana para as aulas retornarem, quando uma mensagem no Whastapp me pegou desprevenida.

“Gata, depois você pode dizer que me ama pessoalmente, mas olha só o que recebi no café hoje.”

Era Lucas, e junto com a mensagem que ele enviara um flyer em anexo carregou. Eu não entendi o que aquilo significava, até aumentar a foto no visor do celular.

“A inauguração da casa contará com um show exclusivo com a banda The Soul, essas meninas prometem fazer você se apaixonar!”

A frase chamou de imediato minha atenção e depois de ler três vezes aquela sentença, o nome “The Soul” começou a ecoar em minha mente sem parar. Eu sabia que banda era aquela. Lembrava-me claramente de Flora contando sobre sua banda cheia de orgulho no dia que nos conhecemos. A foto da banda no flyer só serviu para confirmar ainda mais minhas suposições, Flora estava ao lado de mais três amigas, as demais integrantes da banda. As quatro faziam careta em um estilo rebelde/roqueiro. Não pude deixar de sorrir ao vê-la mais uma vez, ainda que por um flyer no Whatsapp. Ela não havia mudado muito, não parecia mais velha, mas estava mais bela do que nunca.

Na hora do almoço, instintivamente disquei o número de Lucas.

- Eu sabia que cedo ou tarde você ligaria, gata! – Ele disse ao telefone com uma animação fora do normal.

- Onde você conseguiu esse flyer? – Perguntei de imediato.

- Foi entregue pela própria...- Lucas respondeu cheio de intenções.

- F-Flora esteve aí? – Senti meu corpo tremer só de imaginar dividir a mesma cidade com ela novamente.

- Com certeza! Não só ela, como a banda toda! Elas voltaram para valer, pelo que parece...estão até com singles novos no Youtube...

- Lu...- Comecei a falar, mas como se estivesse lendo minha mente, ele respondeu.

- Nós, com certeza, iremos! Você precisa ir, por isso te enviei o convite! – De repente, sua animação me contagiou. Mas durou pouco mais de alguns segundos, pois inevitavelmente o nome “Viollet” veio a minha mente.

- E se uma tal francesa estiver...

- Gata! – Ele me interrompeu. – Você vai precisar reconquistá-la! A vida é uma batalha...


Acabei rindo pelo jeito de Lucas. Mas ele tinha razão, as cartas para reconquistá-la estavam em minhas mãos, só dependeria de mim jogá-las corretamente. E, mesmo se eu não conseguisse, eu sentia que só conseguiria seguir em frente se encarasse Flora nos olhos uma última vez.

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