domingo, 13 de setembro de 2015

Amor & Liberdade - Capítulo XXXVIII


Capítulo XXXVIII

A campainha tocou quando só havia eu na república. Levantei-me da cama, onde eu passara o domingo inteiro, e caminhei até a porta principal. Não precisei perguntar quem era, eu sabia e de alguma forma, ter Lia de volta era uma sensação completamente estranha. Abri a porta e ela logo me abraçou.

- Eu senti tanto a sua falta! – Lia disse em um suspiro, envolvendo meu pescoço. A abracei novamente, mantive-a junto a mim, embora, naquele momento, a sensação que havia em mim era a de que ela não passava de uma estranha.

- Eu também senti...- Foi tudo o que consegui dizer. A verdade era que o final de semana que Lia tirara para ver os pais havia sido na verdade um alívio, um momento onde pude respirar e ponderar o rumo que minha vida havia tomado. Senti-me mal, péssima por ter mentido daquela forma, eu não me sentia assim desde...desde que quando namorava o Ricardo. Respirei fundo, nos afastamos ligeiramente e ela voltou a me encarar. Marília me encarou de uma forma desconfiada. Eu odiava aquele sexto sentido aguçado que ela tinha.

- Você está bem mesmo? – Seus olhos se estreitaram e eu engoli em seco. Tentei mudar de assunto, forçando-me ao máximo a afastar a péssima noite que eu havia tido. Não consegui pegar no sono nem por um instante, pensando em como Flora estaria vivendo feliz na França com a tal Viollet.

- Vem, entra...vamos fechar a porta!- Encostei a porta e quando me virei Lia estava de braços cruzados encarando-me.

- Eu sei que...

Ela me cortou.

- Você está abatida, com olheiras e uma aparência péssima. Algo me diz que isso é mais do que depressão pré Segunda-feira.

- Estar longe de você...- Comecei a dizer. Por um instante, pensei em fazer uma espécie de declaração de amor, dizer que aquilo era saudade e essas coisas clichês. Mas não caberia ali, não com Lia. Ela merecia mais do que mentiras escolhidas. – Fez com que eu pensasse em algumas coisas e...

- Isso não está me cheirando bem! – Lia soltou a mochila em cima do sofá. – O que aconteceu, Ciça?- Seu ar divertido sumira e sobrara apenas desconfiança e mistério.

- Eu não sei se estou sendo sincera comigo. Mas, sei, principalmente, que não estou sendo sincera com você...

Lia segurou minha mão e a acariciou. Ela era carinhosa, era centrada, de um jeito que Flora nunca fora. Em geral, quando eu e Flora começávamos uma briga, no lugar de se aproximar, ela apenas me repelia até que eu estivesse cansada demais para continuar naquela cena e acabasse cedendo.

- O que você quer dizer exatamente?- Seus olhos me encaravam. Por um instante me perdi nas sardas de seu rosto, desejava ser um pontinho como aquele, minúsculo. Mas me obriguei a encará-la novamente. Segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos.

- Eu te adoro...adoro como funcionamos de uma forma natural, adoro o jeito como brincamos uma com a outra, sem medo de nada, adoro como tudo parece mais fácil ao seu lado. Adoro sua segurança, o fato de você não beber ou fumar e até mesmo seus argumentos políticos. Se eu pudesse escolher, só gostaria que fosse você...

- Mas...? – Lia indagou.

- Ah, e eu esqueci de dizer, até seus surtos de sexto sentido eu...- Marília me interrompeu.

- Ciça...

- Ok...mas eu acho que não daremos certo, não enquanto eu...- Instintivamente, senti seus dedos se afastarem dos meus. Eu não a culparia, mas senti lágrimas surgirem em meus olhos. Eu realmente queria escolhê-la, realmente queria amá-la como ela merecia ser amada.

- Enquanto você não tiver seguido em frente? – Lia completou. Seus olhos estavam marejados e aquilo partiu meu coração. Ainda sim, fui surpreendida com a força que ela conseguiu fazer aquela indagação. Em seu lugar eu já teria desmoronado.

- É...mais ou menos isso...des-desculpa! – Eu quis abraçá-la, mas Marília fez um sinal de que estava tudo bem.

- Eu acho melhor tirar as minhas coisas do seu quarto...

- Não! Lia, tudo bem nós podemos...- Tentei dizer, mas fui novamente cortada.

- Nós não podemos, Ceci. Eu realmente gosto de você, não seria justo eu fazer isso comigo.

- Um dia...você vai me perdoar?- Perguntei, mordendo meu lábio inferior nervosamente.

- Você está perdoada...desde já! Eu só quero um dia...deixar de gostar tanto de você...como eu gosto atualmente. – Seu autocontrole não foi suficiente e as lágrimas rolaram por seu rosto. Desejei novamente diminuir o espaço que havia entre nós e abraçá-la. Mas respeitei seu espaço.


- Me desculpe...- Pedi novamente, nos encaramos nos olhos e apesar de desejar o contrário, eu sabia que nossa amizade nunca mais seria a mesma.

2 comentários:

  1. Adoro essa história, apesar de ficar um pouco triste com o rumo que ela toma. Parabéns pela escrita.

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    1. Olá, seja muito bem vinda ao blog e a "Amor & Liberdade", fico imensamente feliz com o comentário...espero que goste do desfecho da história! :P Surpresas te aguardam! Muito obrigada, querida! e até o próximo capítulo

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