domingo, 20 de setembro de 2015

Amor & Liberdade - Capítulo XXXX


Capítulo XXXX

Ainda que eu não acreditasse, o grande dia havia chegado. Os dias passaram arrastados enquanto minha mente só conseguia pensar na possibilidade daquele reencontro. A campainha tocou e eu me apressei para atender a porta. Era Lucas, mais extravagante do que nunca.

- Você está um arraso! – Exclamei ao observar o modelito balada dele. Como se tivesse ganhado um Oscar, ele reverenciou o elogio, me abraçando logo em seguida.

- Pena que eu não posso dizer o mesmo da senhora, não é?

Achei o cúmulo o que ele havia falado, mas de tão absurdo que era, acabei rindo.

- Eu não acredito o que escutei em minha própria casa...

- Amigos sinceros são os melhores, gata! – Ele exclamou, adentrando na república e me puxando pelo braço como se na verdade a casa fosse dele.

- Eu não tenho outra roupa...- Retruquei, enquanto o rapaz havia invadido meu quarto e escancarado meu armário. Ele foi jogando peça a peça que encontrava ali e as amontoando em minha cama. – LUCAS! – Exclamei e então ele parou, tinha um vestido azul escuro em mãos com alguns strass na cintura do vestido, simulando um cinto.

- Parei, juro! – Ele disse, como se estivesse se entregando. – Encontrei o que precisava...- O rapaz esticou o vestido em minha direção.

- Nem pensar! – Exclamei.

- Acredita em mim, gata! Eu não erro...

- Mas eu...sabe quanto tempo eu não uso um vestido?!

 - Essa é a hora então, gata! Você quer ou não reconquistar a sua mulher?

O encarei, não havia o que pensar sobre aquela pergunta. Eu tinha certeza. Peguei o vestido e caminhei em direção ao banheiro para trocar minha camiseta branca e calça jeans por aquele vestido que eu não havia usado uma única vez.

Coloquei a peça e me encarei no espelho. Observei meu reflexo até me acostumar com o que via. Era como se com uma única roupa eu de repente estivesse com aparência de uma mulher, e não com a menina que eu era comumente confundida nas ruas. Lucas estava certo, o vestido caíra perfeitamente em meu corpo, o cinto de strass modelava minha cintura e o fato da saia do vestido ser solta no corpo me deixava um pouco menos incomodada. Passei a sorrir para mim mesma, talvez ele estivesse certo.

- AHHHHHHHHHHHH! – O menino exclamou assim que eu entrei no quarto e eu caí na risada.

- Sabe, esse seu orgasmo foi muito estranho! – Fiz uma careta, brincando com ele.

- Você está incrível!!!

- Obrigada...- Agradeci desta vez sem brincadeiras, estava realmente grata.

- Agora maquiagem e salto!

- LUCAS!

Mas não teve argumentos que o fizesse desistir daquela ideia. Quando saímos de casa eu usava um salto alto preto, maquiagem e até mesmo mousse no cabelo. Seguimos no carro de Lucas para a casa noturna que inaugurava. Estacionamos o carro e seguimos para a fila, eu podia sentir meu corpo inteiro tremendo, receando aquele encontro.

- Dá pra relaxar, você está gatíssima! – Lucas falou e no mesmo instante duas meninas passaram por nós me encarando da cabeça aos pés. – Eu disse! – Lucas falou logo em seguida, todo orgulhoso. – Seu personal stylist é muito bom!
- Elas não olharem para mim! – Resmunguei, achando um absurdo o que ele alegava.

- Para mim é que elas não olharam, gata! – Ele piscou.

Enfrentamos uma fila de cerca de uma hora e meia até conseguirmos passar pela entrada. Lá dentro a música e as luzes rolavam soltas. Foi inevitável não lembrar as festas que frequentei com Flora, em especial a primeira balada que fomos juntas.

- Uma caipirinha de morango! – Pedi para a bargirl que fazia as batidas no bar.

- Ela também está de olho em você! – Lucas falou alto em meu ouvido, já que a música rolava solta.

- Todo mundo pra você está afim de mim hoje...- Fiz uma careta para ele.

- Menos eu, mas se eu gostasse da fruta...eu estaria caidinho também! – Empurrei o ombro dele levemente e quando a moça colocou a bebida vermelha e cheia de gelo na minha frente, a entrada no palco de algumas meninas chamou minha atenção. Entre as garotas estava a minha, a minha mulher. Segurei o copo sem conseguir me mexer. Imediatamente Lucas seguiu meu olhar.

- Eu não sei se conseguirei fazer isso...

- É lógico que você consegue!

Tomei um gole da bebida, observando-a ajustar os equipamentos. Ela parecia tão concentrada, tão atenta as cordas daquele baixo. Sua mão deslizou pelo instrumento e por um instante, ridiculamente, desejei ser ele. Desejei sentir seu toque, ter sua atenção, seu olhar, seu amor. Eu não acreditava que havia tido tudo aquilo, que havia tido aquela mulher e a havia deixado partir.

- Ela está linda...- Meus olhos continuaram encarando-a, ao mesmo tempo tão distante e tão perto de mim. - ...tão linda! – Meus olhos observaram sua regata preta do The Cure, sua calça skinny azul marinha e os coturnos.

As luzes baixaram até o ambiente ficar em um completo breu.

- Agora, a grande atração! Para a nossa festa de inauguração, ninguém melhor que: The Soul! – Uma voz anunciou no autofalante e a platéia foi ao delírio. Elas iniciaram o show com Shake It Out do Florence And The Machine e eu podia jurar que por duas ou três vezes nossos olhares se encontraram entre aquela multidão. A banda tocou mais cinco músicas até o primeiro intervalo.

- É a sua chance! – Lucas me incentivou, empurrando a terceira caipirinha em minha direção.

- Não, eu to passando...- Neguei a bebida e desci do banquinho do bar. – Mas acho que estou pronta para encontrá-la. – Sorri muito mais confiante do que eu realmente me sentia.

- A mesa da banda está ali na frente, perto do palco...- Ele apontou para mim a mesa com alguns convidados.

Pedi duas cervejas e encarei uma última vez Lucas, antes de ir em busca de Flora. Caminhei pela multidão até avistar seus olhos verdes, como o farol de um carro sem freio em uma estrada. Era essa a sensação que eu tinha ao me aproximar dela. Aguardei até a moça que conversava com ela se afastar, para então eu de fato seguir até onde a morena estava.

- Uma fã pode te pagar uma cerveja? – Indaguei, esticando a garrafa gelada na direção dela. Por um instante, Flora ficou sem reação e sorri ao ver aquele jeito espontâneo dela que poucas pessoas conheciam. Ela pegou a bebida, mas pareceu pensar bem antes de falar.

- Cerveja e balada não combinavam muito bem com você da última vez que nos falamos...

Acabei sorrindo, eu sabia que vindo de Flora aquilo poderia ser uma alfinetada. Mas não dei muito atenção aquilo, preferi observá-la encarar-me com toda aquela surpresa.

- Eu acho que você tinha razão, o tempo muda muita coisa...- Estiquei a garrafa em direção a dela. Flora brindou levemente e então tomou um gole, eu fiz o mesmo.

Encaramos-nos e foi como se nunca tivéssemos ficado separadas. Meu coração se acelerou como a cada encontro que tínhamos.

- Eu tenho a certeza de que as mudanças que ele fez em você...foram só para melhor! – Percebi que Flora havia comentado antes mesmo de pensar e aquilo me fez sorrir, dei um passo em sua direção, diminuindo o espaço que ainda havia sobrado entre nós.

- E eu sei que mais do que me mudar, ele me trouxe fortemente a única certeza que eu tenho hoje na vida.

- E qual é? – Flora indagou invadindo minha vida com aqueles seus olhos verdes.


Diminui ainda mais o espaço segurando em sua cintura, trazendo-a em minha direção e nossos lábios se encontraram na sintonia singular, naquela que somente nós duas conheciam. Seus lábios pareciam ainda mais macios do que eu me lembrava e o gosto de cerveja se misturou com seu sabor. Senti seus dedos correrem por minha nuca e imediatamente apertei levemente sua cintura. Meu corpo foi atingido pela magia que era amar Flora, e eu precisei controlar a corrente elétrica que correu por meu corpo.

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